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Vou de ônibus IV – Quando o banal se torna fantástico

12/09/2009
Formigas, muito mais que uma sociedade bem articulada

Formigas, muito mais que uma sociedade bem articulada

Parado no ponto de ônibus, tarde da noite, liguei meu player e passei a ouvir Marvin Gaye, isolando-me do mundo, mas com olhar atento ao fim da rua, na espera do maldito ônibus que me leva pra casa.

Ao meu lado, uma menina loira, de cabelos cacheados, olhos claros, sobretudo marrom e um sapato visivelmente apertado, parecia impaciente. Segurava uma mochila cinza, cheia de bolsos e não parava de olhar no relógio. “Deve estar atrasada”, pensei. O sobretudo me fez lembrar do frio que fazia e, pior, do frio que eu sentia por não ter levado uma blusa.

Alguns minutos se passaram e eu já estava na 2ª música do disco de Marvin: Mercy Mercy Me, um clássico, boa o suficiente para fazer o frio ir embora.

A menina loira ainda estava lá, inquieta. Até que, calmamente, ela olha para trás e percebe a imensidão da farmácia que fica logo em frente ao ponto. A drogaria é funda, tem várias prateleiras compridas e paredes preenchidas de remédios. Perto do caixa, na saída da loja, há uma balança, daquelas que também medem a pressão, a altura e, se você depositar o valor de R$1,00, imprimem uma notinha com o seu índice de massa corporal e a sua classificação: se está raquítico, magro, normal, gordo, obeso ou prestes a ter um infarto. Ou seja, nada muito atraente para alguém que quer voltar logo pra casa e descansar. Mas com a menina de cachos loiros foi diferente. Após fixar o olhar por alguns segundos, ela andou objetivamente em direção ao aparelho, jogou sua mala ao lado e subiu na balança. Pesou-se. Depois de olhar seu peso, não houve expressão forte o bastante para saber se estava satisfeita ou não com seus quilinhos – não era gorda, nem magra, parecia normal. Desceu da balança, pegou a mochila e voltou ao ponto de ônibus. Subiu no veículo seguinte.

O ato da garota, talvez por ter sido totalmente banal, não atraiu a atenção de muita gente, com exceção desse chato que vos escreve e de alguns outros que estavam saindo da farmácia ou bem próximos a ela.

No que se refere ao chato (eu), posso dizer que deu vontade de me pesar. Prontamente, fui até a balança e fiz o mesmo que a garota. Minha expressão após ler meu peso, entretanto, não foi tão neutra; estou um pouco gordo. A 3ª faixa de Gaye, a antológica What’s Going On, não permitiu que eu lamentasse por muito tempo os quilinhos a mais. Apenas fui, em passos pulsantes no andamento da música, de volta ao ponto.

Um rapaz, alto e cabeludo, após olhar minha atitude, ficou fitando a balança. Ao perceber que eu estava observando, desviava o olhar, fingindo-se. Aos poucos, ia dando passos em direção à entrada da farmácia. Não sem antes olhar em volta e atestar que ninguém olhava. Evidentemente, o cara também queria se pesar. Mas era como se estivesse constrangido de repetir o meu ato imediatamente. Então, quando finalmente se sentiu tranquilo, repetiu as duas cenas anteriores e consultou a balança. Não vi sua expressão para o resultado…

Foi a vez de uma senhora, meio corcunda e usando chale preto, manifestar interesse em saber o próprio peso. Ao contrário do inseguro rapaz, a idosa foi determinada e rapidamente até a balança. Pesou-se, não expressou coisa alguma e foi embora. Uma moça a observou e também parecia querer saber como andava a dieta. Foi à balança, mas em passos lentos, intimidada.

Foi só eu olhar ao redor para constatar que muitos agora olhavam para a balança. E não ficavam apenas no pensamento. De forma vagarosa ou não, acabavam se pesando. Não demorou para que se formasse uma fila. Sim, uma farmácia que, a essa hora da noite, sempre estava vazia, ostentava naquele instante uma fila para usar a balança, que muitos nem sequer sabiam que existia e vivia sempre vazia, conservando uma quase inutilidade patente. Naquele momento, ela fazia muito sucesso. As pessoas pareciam se esquecer que tinham de olhar os letreiros dos ônibus, pareciam não querer voltar pra casa. A multidão que aguardava no ponto foi, aos poucos, deslocando-se para a entrada, com a intenção de usar a balança. Achei deslumbrante.

No dia seguinte, muito provavelmente a balança voltaria à condição de figurante, mas não é isso que importa. A menina com cachos loiros deu início a uma atitude coletiva que transformou o fraco (balança vazia) em forte (fila pra pesar), o artigo irrelevante em um objeto de valor.

A ação individual, mesmo partindo de alguém aparentemente inexpressivo e sendo pouco assistida, é poderosa. Um ato simples e banal de um indivíduo é capaz de produzir um sentido de ímpeto coletivo, provocando uma verdadeira reação em cadeia, como ocorreu no caso da balança.

Como se fosse a primeira faísca de uma fogueira, o “um” pode fazer toda a diferença e mudar o que parecia constante, mover uma imensidão. Enfim, mover a sociedade. Sensacional!

Não é, Flick?

O personagem Flick, de "A Vida de Inseto", da Pixar.

O personagem Flick, de "A Vida de Inseto", da Pixar.

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