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Novela?

06/06/2010

Às vezes me surpreendo com o quanto sou brega. Ou, pelo menos, mais do que gostaria de ser. Um dos sintomas dessa minha patologia é um gosto, não necessariamente explicável, por certos melodramas novelescos, daqueles bem afetados e apelativos. Coisas como as forçosas cenas com crianças fofinhas, idosos sofrendo com sua difícil condição, amor de mãe e filha, pai e filho etc.

Ocorre, entretanto, que estava tentando uma maior guinada intelectual – uma fuga desses produtos comerciais e popularescos que apelam às nossas carências, fazendo com que choremos. Algo como os últimos filmes do Will Smith ou as novelas do Manoel Carlos. Opa, disse novelas do Manoel Carlos? Sim, admito, era uma criança noveleira. Gostava de acompanhar a das oito, prática que continuou enquanto ia crescendo e só foi interrompida devido à notável (ou será impressão?) queda de qualidade: os mesmos temas foram tratados à exaustão, faltou criatividade tanto na forma quanto no conteúdo, os carismáticos atores globais envelheceram.

Trata-se de uma crise de transição que talvez ainda esteja acontecendo e foi acentuada pela concorrência das novas mídias – hoje, o mínimo desgosto nem é necessário para que a pessoa saia da frente da televisão e vá baixar a sua série favorita na internet. A alteração dos elencos é inevitável e acontece de forma mais ou menos natural, mesmo que ainda tenhamos que suportar o José Mayer fazendo papel de galã. Achar novos autores, por outro lado, não é tão simples. Quem faz novela no Brasil são os mesmos caras há 30 anos. Difícil manter a qualidade com um grupo tão diminuto de bons autores. Por mais que existam novas histórias, são os mesmos jeitos de contar, os mesmos estilos se alternando. Ninguém com os neurônios no lugar aguenta mais o Aguinaldo Silva e seu heroísmo fácil ou o folclorismo insuportável da Glória Perez. A teledramaturgia brasileira já foi reconhecida mundo afora como produtora de ótimas telenovelas, mas hoje amarga o “mais do mesmo” ou “o pior do mesmo”.

Uma das formas que a Globo encontrou de diversificar a audiência e, ao mesmo tempo, relembrar bons momentos de produção televisiva foi a criação do VIVA, um novo canal pago que se propõe a revisitar séries e novelas antigas da TV Globo. Na programação, você vai encontrar seriados como Sai de Baixo, A Comédia da Vida Privada e outras pérolas do passado. Entre as novelas, o canal reprisa uma que gosto muito: Por Amor, do Manoel Carlos, que passou em 1997.

Eu era uma criancinha chata, mas várias cenas me marcaram. Tanto que, hoje, sou capaz de lembrar diálogos inteiros, sei os nomes dos personagens assim que eles aparecem, lembro das sequências etc. Tive a oportunidade de rever alguns trechos dela, quando foi re-exibida no Vale a pena ver de novo.

Assim como todos os outros autores de novela, Manoel Carlos tem características próprias que se repetem em suas novelas. Não é só a fixação com o nome Helena (sempre a personagem principal), mas a maneira de estruturar os diversos núcleos, a quantidade de melodrama, as diversas filosofias (baratas ou não) embutidas nos diálogos.

Maneco sempre recebeu uma acusação: só falava dos ricos, dos endinheirados. Negligenciaria o aspecto social ao abordar uma realidade sem favelados, onde o Rio de Janeiro se limita aos bairros do Leblon, Barra da Tijuca, Copacabana. Não é uma completa verdade, visto que há, sim, núcleos menos abastecidos financeiramente. Mas, sem dúvida, há um predomínio das classes mais ricas em suas novelas. Os críticos esquecem, porém, de observar que isso força o autor a ter de criar conflitos humanos e universais para que seus personagens ganhem força e a narrativa caminhe. Não há uma personagem que veio de baixo e acendeu socialmente graças a sua perseverança (Senhora do Destino) ou uma garota que quer ir para os Estados Unidos ilegalmente (América). Com os personagens de Maneco, o dinheiro ou o sucesso profissional não são o grande objetivo porque eles já têm isso. Por que então sofrem? Pelo quê vão lutar? Quais são seus objetivos? Por que torcemos por eles e compramos suas causas?

No caso de Por Amor, como o próprio título já entrega, os acontecimentos estão todos relacionados à capacidade de amar alguém e, mais ainda, o quanto isso pode ser forte o suficiente para que alguém seja capaz de fazer coisas inimagináveis. É uma novela que fala de pessoas que amam demais. As atitudes dos personagens têm no amor sua justificativa maior, mas são articuladas de maneira interessante: o amor constrói muito mais que o mocinho e a mocinha, constrói também o vilão, a coitada, a invejosa, o arrependido.

A habilidade de um autor está em fazer, através do texto e da elaboração dos personagens, com que nos envolvamos com sua história. Numa novela em que as ações são pautadas no aspecto emocional, a trama narrativa pode extrapolar os limites do coerente. Uma mãe e uma filha que engravidam ao mesmo tempo e fazem o parto no mesmo dia já é forçar muito a barra. Então o bebê da filha morre logo após nascer e a mãe, com a ajuda de um médico, troca o bebê morto pelo seu bebê, vivo e saudável. Em segundos de desespero, Helena cometeu esse crime que envolvia muitas pessoas além dela e da filha. É o segredo que sustentará a trama até o fim. Posto assim, num texto corrido de um blog despretensioso, parece algo extremamente ridículo e inverossímil. Numa lógica racional e naturalista, é, de fato, um evento bem improvável. Mas a qualidade do texto – que é sedutor, filosófico, vai nos conquistando aos poucos – e o trabalho de ótimos atores quase faz com que esqueçamos de dizer o “Ah, até parece!” e digamos “Nossa senhora!”. Não só aceitamos o que aconteceu, como perdoamos a personagem no fim.

Para o bem da verdade, nunca mais assisti a uma novela que considerasse tão visceral no que cabe ao drama. O próprio Manoel Carlos não conseguiu, a meu ver, repetir a dose em seus outros trabalhos. Em Por Amor, vários dos elementos shakesperianos, sofoclianos, euripidianos, foram tratados com autoridade pelo texto. Do contrário, tudo pareceria patético, artificial e enojado ao extremo.

Antes que eu me esqueça, uma grande responsável por “levar-nos” a embarcar na trama é a trilha sonora. Uma interpretação da Zizi Possi para Per Amore embalava o casal principal. Mas a minha preferida é a canção de abertura: Falando de Amor, de Tom Jobim, uma das coisas mais lindas já feitas na MPB e que, na novela, apresentou-se pelas vozes do Quarteto em Cy e do MPB4.

Quem não lembra do bêbado Orestes (Paulo José)?

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GLEE

13/02/2010

Glee,Glee e mais Glee. É um dos meus vícios atuais entre as séries americanas. Resisti muito, ignorei indicações de amigos e os paparicos da crítica, pois julgava (com aquele típico preconceito odioso) algo que daria enjôo de tão caricaturizado que devia ser, além de condenar o que eu achava um estelionato televisivo, um plano podre de embarcar no sucesso de High School Musical.

Mas, se foi na onda do musical da Disney ou não, Glee é muito diferente – e muito melhor. As temáticas são comuns: a escola americana, o bullying, o casalzinho popular, o professor mau, o atleta pop que está dividido entre ser quem ele quer ou quem os outros querem, as minorias estão ali representadas etc. No entanto, a maneira de tratar os estereótipos é o que faz de Glee uma série criativa e muito divertida.

Para ficar com um exemplo: em High School Musical, Troy Bolton (o jogador de basquete pop) é líder do time da escola, que ganha tudo e é treinado pelo pai de Troy, um típico paizão americano que tem orgulho do filho se dar bem nos esportes. Em Glee, o time de futebol americano, liderado por Finn (o quarterback), é um verdadeiro fracasso e seu treinador usa um short ridículo de tão curto.

O professor/coordenador do Glee Will Schuester

Sim, os clichês estão lá, mas é como se imperasse um ímpeto muito mais satírico na maneira de usá-los. High School Musical leva os estereótipos a sério e com eles faz um conto de fadas enjoado, batido e americanófilo. Glee não, Glee estraçalha os estereótipos. Até faz o conto de fadas, mas é um conto de fadas farsesco, cheio de sarro, assumidamente exagerado e com caricaturas que nos divertem.

Fora isso, não me lembro de uma série americana em forma de musical antes. Mesmo com a força da Broadway e a tradição artística do teatro americano – “ator bom tem que ser completo: atuar, cantar e dançar” – não se tem visto musicais em meio às séries e seriados estadunidenses.

Glee traz, então, esse formato, com vários números musicais por episódio. Para tal, aproveita-se de ótimos atores/cantores. Destaco a atriz Lea Michele, que veio da Broadway para fazer a personagem principal Rachel, e a ótima Jane Lynch, que incorpora a vilã Sue Silvester.

As músicas, em sua maioria sucessos de artistas consagrados, se apresentam em novas versões. Os arranjos para várias vozes compõem a cara de Glee.

Rachel

Diversão. Diversão pura. Entretenimento do melhor!


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