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Procurando Norah Jones…

16/01/2010

Capa de The Fall, novo disco de Norah Jones

Quando Norah Jones surgiu para o mundo, em 2002, com Come away with me, seu primeiro disco, uma carreira sólida e de grande sucesso se anunciou. O álbum trazia lindas canções, poucos e bem feitos covers, tudo numa roupagem jazzística, mesmo que com altas pitadas pop. Apesar de haver controvérsias sobre a definição do estilo, é o álbum de jazz mais vendido da história, assim como foi o cd mais vendido de 2002.

O convite

Ao pé do ouvido, pertinho, gostosinho... foi bom enquanto durou

Porém, se, para os apreciadores da beleza e talento de Norah, era aquele o som certo, o melhor que ela podia dar, o som que ela deveria continuar fazendo, para ela tudo parecia insuficiente. Nem a enxurrada de Grammys e o recorde de vendagem impediram que ela mudasse a sonoridade no álbum seguinte, Feels like home, que flerta fortemente com o country, ainda que mantenha em poucas músicas a doçura que lhe era característica no jazz intimista do 1º disco. Vendeu bem – não tanto quanto Come away – e a turnê trouxe uma Norah que, não se sabe se por vontade própria ou por orientação, já não permanecia o tempo todo ao piano, levantando para cantar e exibindo mini-passos não coreografados, enquanto que algumas das músicas antigas recebia novo arranjo – a arrasa-quarteirões Don’t know why, por exemplo, ficou sem piano, com a linda introdução feita, agora, no violão. Foi essa turnê que veio ao Brasil, em apresentação memorável no Via Funchal, na qual pude comparecer.

O guitarrista Adam Levy

Not too late, o 3º disco, de 2007, esqueceu de vez o jazz, continuou uma pegada country e trouxe como novo elemento a busca pelo rock e algumas experimentações. O piano foi praticamente esquecido; Norah toca guitarra, órgão, fender rodhes e o velho companheiro piano elétrico wurlitzer, que foi consagrado por Rick Davies, do Supertramp. O disco, que já trazia Norah compondo com mais frequência, é, para mim, o mais fraco, com a compreensível justificativa de, talvez, ser um disco de transição. Nada, entretanto, que afastasse Norah dos fãs e das vendagens significativas. Para os outros, ela é sempre ótima, o problema é sua auto-crítica, forte o suficiente para se tornar perceptível, nas entrevistas de fim de turnê, a insatisfação com a obra.

E então veio The Fall, o mais recente. Dessa vez a mudança foi radical: Norah dispensou a competente banda que a acompanhava desde o começo e lançou um disco difícil.  Fui ouvir o material na esperança de encontrar um retorno às origens, algo que revivesse, pelo menos em parte, a pureza que tinha o 1º álbum, que julgo o melhor. Não achei nada disso. Na 1ª audição, The Fall me pareceu mais um erro de Norah, mais uma tentativa de se encontrar, de se achar. Era o retrato de uma artista que, surpreendentemente, ainda não se descobriu, com o curioso detalhe de que nós já a descobrimos e a aprovamos em mais de uma de suas facetas.

Mas a paciência mais uma vez foi a chave. Pautado pelo respeito e admiração que tenho por Norah, voltei a ouvir “A Queda”; resolvi colocá-lo no mp4 e as 13 faixas têm me acompanhado por onde vou. Posso dizer que cada vez que ouço gosto mais. O piano foi mesmo embora, a guitarra está mais distorcida, não há jazz, não há country, há baladas, há rock, as letras são tristes. É, como já disse, um disco difícil, com uma instrumentação incomum – se compararmos com os trabalhos anteriores – e os novos arranjos estão mais pesados, menos intimistas, soando diferente da Norah que conhecemos.

No entanto, não consigo esconder minha admiração pela atitude. Já ouvi dizerem que artista de verdade é isso mesmo; está sempre em busca de si, mudando, procurando sem medo de não achar, arrependendo-se, tentando evoluir. Norah podia ter feito 30 Come away with me, colocado várias canções no topo da Billboard, entre outras façanhas. Tinha a fórmula e a competência pra isso. Acertou de primeira, era só manter. Mas não, ela preferiu dar luz a uma das mais nobres virtudes que um artista pode ter para com seu público e sua própria obra, algo que está presente em todos os seus discos e que é cada vez mais raro hoje em dia: honestidade.

Norah, fazendo o que quer

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