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A “Travessia” e o amigo

02/04/2010

Travessia (Fernando Brant/ Milton Nascimento)

Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito,
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar
Estou só e não resisto,
Muito tenho prá falar

Solto a voz nas estradas,
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra,
Como posso sonhar
Sonho feito de brisa,
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto,
Vou querer me matar

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte,
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço
Com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas,
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra,
Como posso sonhar
Sonho feito de brisa,
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto,
Vou querer me matar

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte,
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço
Com meu braço o meu viver

Vários são os obstáculos quando, por vontade própria, destino ou consequência, enfrentamos uma travessia.  Tá, admito, pouco sei sobre travessias. Parece que ainda não vivi o suficiente. Mas uma coisa é fato: quando é necessário seguir adiante, nada melhor do que um certeiro camarada. É alguém que dirá o óbvio, o que você já espera e o que já escuta de todos. Mas o sentimento ao ouvi-lo é diferente, a consideração pelo que está sendo dito é maior e o privilégio de estar recebendo carinho e atenção é impagável.

Deve ser a tal da amizade.

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City of Blinding Lights

21/03/2010

Tokyo

Há alguns posts atrás, manifestei aqui meu apreço pela chuva em seus diversos formatos, sendo que gosto de ouvi-la, senti-la, tocá-la etc. Outra paixão minha é pelas “blinding lights”, as luzes da cidade, os pontos luminosos que, à noite, vem de várias alturas e em várias cores, ajudando a formar paisagens como a da figura acima.

Creio que se tivesse a livre oportunidade de escolher um lugar para morar, os únicos pré-requisitos seriam: cidade bem urbanizada, prédios altos, muita gente, vida cultural ativa e luzes, muitas luzes, noites iluminadas. Oh, sim, sou um cosmopolita confesso, urbano até dizer chega. Para mim, praias, campos e cachoeiras devem ficar limitados a momentos de lazer findáveis, escapes fundamentais da rotina, mas de efeito passageiro. Não trocaria uma cidade bem iluminada por um recinto paradisíaco.

E essa visão até que é bem comum. Há odes à paisagem noturna urbana aos montes. Para ficar em exemplos atuais, John Mayer canta exatamente isso em Neon, cuja letra guarda várias semelhanças com a música do U2 que dá nome a este post. O diretor francês Christophe Honoré é outro, que, em seus filmes, insiste em mostrar Paris e suas luzes à noite.

Brisbane

Vou um pouco adiante. Um momento especial para mim é aquele típico fim de noite de sábado, também conhecido como a volta da balada ou o retorno do barzinho – no meu caso, seria esta última. Nos bancos do carro, domina o silêncio, já que todas as energias foram gastas: o pessoal dançou, cantou, conversou bastante e provavelmente bebeu muito. Levemente embriagados, alguns dormem e outros, como eu, encostam a cabeça no vidro do carro para acompanhar o êxtase das luzes. Na madrugada, com as avenidas mais livres e o carro em maior velocidade, os skylines,os flashes, as luzes neon e tudo mais que é fluorescente ajudam a ofuscar nossa visão, compondo aquela imagem embaçada, cheia de “vagalumes”. Claro que essa viagem seria mais bem aproveitada se eu morasse em Tóquio ou se o Kassab não tivesse acabado com os outdoors luminosos. Mas, ainda assim, São Paulo possui as “blinding lights” e nelas eu vejo beleza, parte de um último suspiro antes de chegar em casa e acordar, no dia seguinte, voltando à vida real.

Para a minha alegria, a Sofia Coppola soube captar esse tipo de situação com extrema sensibilidade em Lost in Translation (Encontros e Desencontros). Você pode ver aqui, em um vídeo de qualidade não tão boa, o momento em que Scarlet Johansson e Bill Murray voltam da balada em Tóquio. Aliás, poucos filmes homenagearam tanto uma cidade quanto esse. O melhor de Tóquio, enquanto megalópole, está lá: desde a tradição dos karaokês e tudo quanto é artefato eletrônico até a altura dos edifícios, as luzes e a multidão de pessoas. E Sofia tem um olho especial, responsável por belíssimas imagens. Coisas como a cena em que Scarlet está sentada à beira de uma enorme janela de vidro, abraçando os joelhos e olhando a cidade do alto do apartamento. É um filme muito gostoso de ver e nos traz as luzes de Tóquio. Lindo!



Menos inspirada artisticamente, mas com espírito parecido, é essa cena, abaixo, de O Diabo Veste Prada:

GLEE

13/02/2010

Glee,Glee e mais Glee. É um dos meus vícios atuais entre as séries americanas. Resisti muito, ignorei indicações de amigos e os paparicos da crítica, pois julgava (com aquele típico preconceito odioso) algo que daria enjôo de tão caricaturizado que devia ser, além de condenar o que eu achava um estelionato televisivo, um plano podre de embarcar no sucesso de High School Musical.

Mas, se foi na onda do musical da Disney ou não, Glee é muito diferente – e muito melhor. As temáticas são comuns: a escola americana, o bullying, o casalzinho popular, o professor mau, o atleta pop que está dividido entre ser quem ele quer ou quem os outros querem, as minorias estão ali representadas etc. No entanto, a maneira de tratar os estereótipos é o que faz de Glee uma série criativa e muito divertida.

Para ficar com um exemplo: em High School Musical, Troy Bolton (o jogador de basquete pop) é líder do time da escola, que ganha tudo e é treinado pelo pai de Troy, um típico paizão americano que tem orgulho do filho se dar bem nos esportes. Em Glee, o time de futebol americano, liderado por Finn (o quarterback), é um verdadeiro fracasso e seu treinador usa um short ridículo de tão curto.

O professor/coordenador do Glee Will Schuester

Sim, os clichês estão lá, mas é como se imperasse um ímpeto muito mais satírico na maneira de usá-los. High School Musical leva os estereótipos a sério e com eles faz um conto de fadas enjoado, batido e americanófilo. Glee não, Glee estraçalha os estereótipos. Até faz o conto de fadas, mas é um conto de fadas farsesco, cheio de sarro, assumidamente exagerado e com caricaturas que nos divertem.

Fora isso, não me lembro de uma série americana em forma de musical antes. Mesmo com a força da Broadway e a tradição artística do teatro americano – “ator bom tem que ser completo: atuar, cantar e dançar” – não se tem visto musicais em meio às séries e seriados estadunidenses.

Glee traz, então, esse formato, com vários números musicais por episódio. Para tal, aproveita-se de ótimos atores/cantores. Destaco a atriz Lea Michele, que veio da Broadway para fazer a personagem principal Rachel, e a ótima Jane Lynch, que incorpora a vilã Sue Silvester.

As músicas, em sua maioria sucessos de artistas consagrados, se apresentam em novas versões. Os arranjos para várias vozes compõem a cara de Glee.

Rachel

Diversão. Diversão pura. Entretenimento do melhor!

Seal, o demolidor

05/02/2010

Seal, mais um grande cantor do que qualquer outra coisa

Se tivesse que me classificar como um tipo de ouvinte, seria daqueles que implicam com um disco e demoram meses para largá-lo. E o álbum da vez no meu player é Soul, lançado em 2008 pelo cantor londrino Seal. Já o admirava devido a sucessos antigos como Crazy, Violet, Killer e a balada Kiss From a Rose: boas canções, expoentes de playlists versáteis que trouxeram ao britânico grande reconhecimento de público e crítica.

Soul é o último trabalho de Seal e traz como novidade o fato de todas as canções serem regravações, não há nenhuma inédita ou de sua autoria. A proposta do disco é pegar alguns clássicos do Soul e dar-lhes uma poderosa interpretação, sem alterar muito a roupagem; percebe-se que até os arranjos ainda estão muito parecidos com os originais. A diferença mesmo é o cantor. Barítono, lindo timbre, uma leve rouquidão característica e o completo domínio da técnica vocal fazem o potencial de Seal. Mas tudo isso seria insuficiente, não fosse a inteligência da interpretação – leves mudanças nas linhas vocais, muito respeito à gravação original e, ainda assim, um carimbo estilístico próprio do cantor está ali inserido.

Mais que tudo, a escolha das músicas foi corajosa por selecionar canções já consagradas por vozes como a de James Brown, John Lennon, Al Green e muitos outros. O titio Ronnie Von disse achar a interpretação de Seal para Stand by me (penúltima faixa) superior às versões de Lennon e de Ben E. King. Não só digo o mesmo, como estendo essa visão para as outras canções. Além disso, um amigo meu costuma dizer, com certa razão, que cantar soul em 6 por 8* é coisa pra quem sabe.

Essas reflexões me levam ao conceito de intérprete demolidor: aquele cantor que acaba com todas as outras interpretações já feitas para a música. Claro que, nesse caso, isso ainda seria um exagero, tendo em vista o nível dos intérpretes homenageados por Seal nesse disco. Mas os demolidores existem. Elis Regina e Milton Nascimento, por exemplo, costumam dar interpretações que, se não podem ser definitivas, são extremamente difíceis de serem superadas – ignorando, claro, o alto grau de subjetividade desse tipo de julgamento. Não sei se Seal chegará a esse patamar com tanta autoridade, mas, sem dúvidas, é um dos grandes intérpretes da atualidade e Soul é uma delícia de se ouvir.

Abaixo, posto um vídeo de uma apresentação em que o britânico canta It’s a man’s world, quase imortalizada na voz de James Brown:

* 6 por 8 é uma fórmula de compasso musical. No soul, é empregada, geralmente, em canções que tem por característica um andamento mais lento e arrastado. A música do vídeo acima é um exemplo.

Procurando Norah Jones…

16/01/2010

Capa de The Fall, novo disco de Norah Jones

Quando Norah Jones surgiu para o mundo, em 2002, com Come away with me, seu primeiro disco, uma carreira sólida e de grande sucesso se anunciou. O álbum trazia lindas canções, poucos e bem feitos covers, tudo numa roupagem jazzística, mesmo que com altas pitadas pop. Apesar de haver controvérsias sobre a definição do estilo, é o álbum de jazz mais vendido da história, assim como foi o cd mais vendido de 2002.

O convite

Ao pé do ouvido, pertinho, gostosinho... foi bom enquanto durou

Porém, se, para os apreciadores da beleza e talento de Norah, era aquele o som certo, o melhor que ela podia dar, o som que ela deveria continuar fazendo, para ela tudo parecia insuficiente. Nem a enxurrada de Grammys e o recorde de vendagem impediram que ela mudasse a sonoridade no álbum seguinte, Feels like home, que flerta fortemente com o country, ainda que mantenha em poucas músicas a doçura que lhe era característica no jazz intimista do 1º disco. Vendeu bem – não tanto quanto Come away – e a turnê trouxe uma Norah que, não se sabe se por vontade própria ou por orientação, já não permanecia o tempo todo ao piano, levantando para cantar e exibindo mini-passos não coreografados, enquanto que algumas das músicas antigas recebia novo arranjo – a arrasa-quarteirões Don’t know why, por exemplo, ficou sem piano, com a linda introdução feita, agora, no violão. Foi essa turnê que veio ao Brasil, em apresentação memorável no Via Funchal, na qual pude comparecer.

O guitarrista Adam Levy

Not too late, o 3º disco, de 2007, esqueceu de vez o jazz, continuou uma pegada country e trouxe como novo elemento a busca pelo rock e algumas experimentações. O piano foi praticamente esquecido; Norah toca guitarra, órgão, fender rodhes e o velho companheiro piano elétrico wurlitzer, que foi consagrado por Rick Davies, do Supertramp. O disco, que já trazia Norah compondo com mais frequência, é, para mim, o mais fraco, com a compreensível justificativa de, talvez, ser um disco de transição. Nada, entretanto, que afastasse Norah dos fãs e das vendagens significativas. Para os outros, ela é sempre ótima, o problema é sua auto-crítica, forte o suficiente para se tornar perceptível, nas entrevistas de fim de turnê, a insatisfação com a obra.

E então veio The Fall, o mais recente. Dessa vez a mudança foi radical: Norah dispensou a competente banda que a acompanhava desde o começo e lançou um disco difícil.  Fui ouvir o material na esperança de encontrar um retorno às origens, algo que revivesse, pelo menos em parte, a pureza que tinha o 1º álbum, que julgo o melhor. Não achei nada disso. Na 1ª audição, The Fall me pareceu mais um erro de Norah, mais uma tentativa de se encontrar, de se achar. Era o retrato de uma artista que, surpreendentemente, ainda não se descobriu, com o curioso detalhe de que nós já a descobrimos e a aprovamos em mais de uma de suas facetas.

Mas a paciência mais uma vez foi a chave. Pautado pelo respeito e admiração que tenho por Norah, voltei a ouvir “A Queda”; resolvi colocá-lo no mp4 e as 13 faixas têm me acompanhado por onde vou. Posso dizer que cada vez que ouço gosto mais. O piano foi mesmo embora, a guitarra está mais distorcida, não há jazz, não há country, há baladas, há rock, as letras são tristes. É, como já disse, um disco difícil, com uma instrumentação incomum – se compararmos com os trabalhos anteriores – e os novos arranjos estão mais pesados, menos intimistas, soando diferente da Norah que conhecemos.

No entanto, não consigo esconder minha admiração pela atitude. Já ouvi dizerem que artista de verdade é isso mesmo; está sempre em busca de si, mudando, procurando sem medo de não achar, arrependendo-se, tentando evoluir. Norah podia ter feito 30 Come away with me, colocado várias canções no topo da Billboard, entre outras façanhas. Tinha a fórmula e a competência pra isso. Acertou de primeira, era só manter. Mas não, ela preferiu dar luz a uma das mais nobres virtudes que um artista pode ter para com seu público e sua própria obra, algo que está presente em todos os seus discos e que é cada vez mais raro hoje em dia: honestidade.

Norah, fazendo o que quer


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