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O último a sair do breu acende a luz

13/03/2010

imagem de Deviantart.com

Estava esperando o ônibus. O ponto fica em frente a um bar que permanece aberto até altas horas. Gosto de ficar um pouco distante e não junto com o aglomerado de pessoas. Assim, coloco os fones de ouvido e me distancio, posicionando-me perto de outros estabelecimentos que já fecharam e agora suas calçadas dão lugar aos mendigos, que ali dormem.

Um dos rosto sob os cobertores era o de uma menina; negra, devia ter 14 ou 15 anos. Quando percebeu que eu me aproximava, afastou o cobertor e ergueu a cabeça. Passou a me encarar. Era muito bonita, mas seu olhar me incomodava: era penetrante e muito triste.

– Você vai comprar alguma coisa pra eu comer?

(não respondi)

– Então o quê que você tá olhando?

(constrangido, fui embora)

É o tipo de situação que adquire um estranho valor temporal, fazendo com que eu esquecesse de muita coisa que poderia ocupar a minha cabeça na volta pra casa. A roupa suja, o cobertor, a hostilidade da calçada, o cheiro, tudo é muito forte. Mas mais signficativo ainda é o olhar. Nele, pouco se esconde. A miséria está ali, muito mais no olhar do que na “estética da pobreza”. São os olhos que me entristeceram e que revelaram, mais uma vez, a angústia do mundo sub-humano. Não só os meus problemas se tornaram mesquinhos naquele momento, como também lembrei que o sofrimento dela e de outros na mesma situação representa uma dívida. A humanidade, nós, temos dívidas, contas gigantescas a pagar. Nossas necessidades consumistas, um real egoísmo e a alienação fazem com que tenhamos momentos alegres e continuemos andando, passeando no nosso mundo humano. Isso até nos depararmos com um olhar como o dessa menina e percebermos que o mundo sub-humano coexiste junto com o nosso. Fazemos parte dele, mas não pagamos a conta. Amanhã, voltaremos ilusoriamente ao mundo humano, achando que tudo está bem, mas provavelmente um outro olhar em alguma esquina vai nos lembrar que estávamos sonhando. É um ciclo: a todo momento, entramos e saímos do breu.

Lenine canta, em Quadro-Negro: “Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz? O último a sair do breu acende a luz”

 

Imagens de Deviantart.com
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