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Where the hell is my vicodin?

31/05/2010

Barba por fazer, mochila nas costas e um andar inconfundível: junto com os movimentos da perna direita, uma bengala – marca de um dos personagens mais complexos da história da TV americana.

O Dr. Gregory House é um médico diferenciado. Salva muitas vidas, mas não tem o desígnio moral do herói, muito menos o comportamento típico dos médicos de seriados antigos.  O que o fez ser um ícone da medicina diagnóstica foi a paixão pelo desafio de resolver os mais difíceis enigmas médicos e não a vontade de ajudar as pessoas. Pouco importa o paciente, o prazer de House é justamente ver casos bizarros, impensáveis e resolvê-los com sagacidade. Para isso, ele prega uma filosofia prática anti-Patch Adams: o médico deve estar o mais distante possível do paciente. É dessa maneira, sem nem sequer guardar o nome dos enfermos, que o “detetive” House – a influência de Sherlock Holmes já foi admitida por David Shore, criador da série – soluciona os casos e descobre o “assassino” (a doença).

Egocêntrico, insubordinável, arrogante, indelicado, extremamente sarcástico, com mau-humor crônico e dotado de uma inteligência acima da média, o quase infalível House pode até ser considerado um anti-herói. Várias características de sua personalidade permitem que o encaixemos na categoria dos heróis pós-modernos; aqueles que salvam o mundo, mas são cheios de problemas, várias coisas os incomodam, a vida pessoal é uma tristeza. Como exemplo, Jack Bauer, Patrick Jane, Jason Bourne, Peter Parker, Jack Shepard e até o Batman, que, em O Cavaleiro das Trevas, sofre de amor não correspondido, algo inimaginável no mundo romântico de heróis a lá James Bond. House segue essa cartilha: não mantém distância apenas dos pacientes, mas do mundo. É um solitário natural. Como se não bastasse, um infarto na perna causou a deficiência que o faz mancar, além de levar ao vício no forte analgésico Vicodin.

O Dr. House é um ex-iluminista, alguém que acreditou ser o racionalismo científico a resposta para os problemas humanos, caindo em desilusão posteriormente. Sua misantropia tem uma justificativa: ele é um verdadeiro descrente da humanidade – não quer salvar o mundo – e eis a característica que o faz um personagem tão interessante e o difere dos heróis citados. Chamá-lo de cético é um eufemismo descabido.

A obsessão pela razão e pela verdade originou uma das frases mais famosas do médico: everybody lies. A sentença ganha sentido ao observar-se a quantidade de episódios em que a chave para o mistério é uma mentira de alguém (muitas vezes do próprio paciente), que é desmascarado por House no final. Mas vai além disso. Everybody lies é o slogan que representa a visão de mundo do personagem. Ele não acredita nas pessoas. A humanidade seria um antro onde pessoas mentem para as outras e para si mesmas, sendo, assim, infelizes. No entanto, para House, não basta saber a verdade, é necessário difundi-la. Sempre é melhor saber, diz o médico. Mesmo que saber também não origine alegria, pelo contrário. Temos então uma via de mão dupla: as pessoas acabam se afastando do médico enquanto ele parece não fazer questão de que esse processo se reverta. O oncologista Dr. Wilson é o único que o agüenta de verdade.

Mas a questão é: por que gostamos tanto desse babaca prepotente que espalha infelicidade por onde passa?

A quantidade de respostas diferentes para essa questão comprova a complexidade do personagem. Muitos fãs da série têm por House sentimentos conflitantes, paradoxais. Podemos admirá-lo pelo seu estrondoso acúmulo de conhecimento, o que o capacitou a salvar vidas. Mas jamais queremos ser que nem ele, porque ninguém quer sofrer daquele jeito; ninguém quer ter dores, ser sozinho, ser viciado. Rimos com ele, adoramos suas tiradas – sempre é legal ver personagens que insultam os outros com a verdade. Porém, também temos raiva quando ele trata alguém de forma desumana. Outro sentimento comum é a pena. Sim, de alguma maneira torcemos por ele e queremos que ele seja feliz. Mas House sempre estraga tudo, a infelicidade bate à porta. Mostra-se humano, sofre por afastar pessoas, arrepende-se, tem recaídas e é nesses momentos que a série cresce dramaticamente.

O Dr. House é um personagem inesquecível. Claro que os outros elementos de House M.D. contribuem. Os coadjuvantes, que antes eram meras escadas, foram adquirindo dramas próprios e a série continua empolgando em um dos seus principais méritos: o texto, ágil e surpreendente. Mas a grande jóia, o ouro da série, está na profundidade de Gregory House. Hugh Laurie, salvo engano o ator mais bem pago da TV americana, tem em suas mãos um personagem visceral.



House, um paciente difícil

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