Posted tagged ‘Chuva’

Nada inspirados

23/01/2010

Marginal Tietê na altura da ponte das Bandeiras: água pra todo lado. Rivaldo Gomes/ Folha Imagem

Falar da chuva quase descambou para um desabafo político no post anterior. A salvação, talvez, veio com o lirismo de Kurosawa. Mas hoje, ao ler a Folha, encontro um artigo de Fernando de Barros e Silva que expressa muito do que penso sobre os desastrosos alagamentos que vem ocorrendo em São Paulo.

Infringindo a lei do copyright, exponho aqui, na íntegra, o texto-manifesto do colunista:

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Ensaio sobre o aguaceiro

SÃO PAULO – Aguaceiro, diz o Houaiss, é uma “chuva forte, súbita e passageira”; mas também pode ser, em sentido figurado, “contrariedade, infelicidade inesperada, infortúnio”. Os paulistanos conhecem de perto os dois significados: a chuva forte vem e passa; o infortúnio fica. E nem se pode dizer que seja uma “infelicidade inesperada”.
É certo que chove um bocado neste janeiro. Mas também é imoral buscar nos humores da natureza as razões de um colapso que se explica muito melhor pelo descaso histórico com o planejamento da cidade, associado à incompetência e incapacidade da administração demo-tucana para ao menos notar a extensão e gravidade do problema.
A chuva voltou a fazer estragos em todas as regiões da capital e provocou alagamentos em 112 pontos na madrugada de quinta. Tomando-se a Grande São Paulo, dez pessoas morreram. O Tietê -o rio infecto que, segundo os tucanos, não alagaria mais- transbordou pela terceira vez desde que sua calha foi rebaixada, em 2006. Os congestionamentos ontem batiam na casa dos 140 km -isso em janeiro, quando estima-se que de 20% a 30% da frota esteja fora de circulação.
Obras de drenagem contra enchentes insuficientes, piscinões saturados, bueiros entupidos, solo cada vez menos permeável. O mar de laje da zona leste é uma das imagens mais tristes da tragédia paulistana. É evidente que essa é uma batalha que vem sendo perdida pela cidade, com transtornos para todos e danos intoleráveis para os pobres.
Havia cobras, ratos e vidas estragadas aos montes sob a água suja quando, depois de dias, Gilberto Kassab deu o ar da graça no Jardim Pantanal. O prefeito agora, mesmo vaiado, pede que a população “fique tranquila”, o que parece menos uma demonstração de serenidade do que de desconexão com a realidade. Enquanto isso, Serra avisa a rapaziada pelo twitter que este é um “ano anômalo”. De fato, um ano surreal. Já encontramos até peixe morto em túnel alagado. Quem sabe ainda vão achar tucano afogado.

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Chuvas inspiradoras

21/01/2010

Tem chovido bastante nos últimos dias. Gosto de chuva. Gosto de ver a chuva, de ouvir a chuva, de cheirar a chuva e, de vez em quando, de sentir a chuva. Ela também me inspira bastante, é como se fosse um momento de parar tudo e pensar, enquanto as gotas caem. Para tanto, qualquer tipo de chuva já é o suficiente para mim. Gosto de ficar escutando uma chove forte e constante antes de dormir, mas também curto a inconstância; quando ela fica oscilando, numa indecisão entre arrebentar tudo e  manerar. Ainda aprecio a chuva fraca, daquelas finas que não molham tanto, mas bastam para fazer um barulinho bom. Assim como a garoa ou a chuva em seu fim, com um espaço de tempo maior entre uma gota e outra. Chuva é um fenômeno lindo.

Acontece que, num país como o Brasil, a chuva é motivo de preocupação, já que geralmente significa que o noticiário do dia seguinte estará repleto de notícias tristes. Mas a culpa não é da chuva, que é linda, gostosa, arrasadora no melhor sentido. Nos comentários sobre as catástrofes recentes, tenho odiado escutar frases como “É, a chuva não ajudou”, “Que pena que choveu”, “Uma fatalidade da natureza”. Pobre chuva! Os homens, que constroem pousadas em áreas com licitação ilegal, aparecem no jornal televisivo falando mal dela, acusando-a de ter causado prejuízo, de ter matado pessoas queridas. A chuva, o sol, o mar, a neve, os rios e os ventos não matam ninguém. São maravilhas sem as quais não teríamos a acepção do conceito de beleza que temos hoje. Poderia, ainda, ficar aqui falando da importância da chuva para a natureza, o ciclo da água etc. Mas pra isso já temos o Guilherme Arantes. Só quero enfatizar que o que mata é o descuido, a ganância, a sujeira. Aliás, ouvi alguém por aí dizer que as chuvas vêm quando algo precisa ser lavado – explica por que chove tanto por aqui.

Mas, esquecendo esse regurgito político, volto a dizer que amo a chuva. E, muitas vezes, quero que chova. No cinema, tenho quedas por cenas com chuva. E ela se tornou um recurso até covarde se a intenção é emocionar. Sob chuva, aconteceram despedidas, perseguições, danças, fugas, abraços, lutas e, claro, beijos. Há cenas que são marcantes muito em função da gloriosa chuva. Estava aqui pensando em algumas e rapidamente cheguei em uma muito especial para mim. Sem esquecer do Gene Kelly e de várias cenas de amor sob os encharcos de São Pedro, a que mais mexe comigo, principalmente por causa de sua beleza estética, é uma cena de Rapsódia em Agosto, direção de Akira Kurosawa.

O filme é sobre quatro jovens que vão passar uns dias no Japão, na casa da avó, que sobreviveu ao ataque nuclear em Hiroshima e Nagasaki. Tudo é quase intimista, muito sutil e essa maravilhosa cena começa aos 2:10 do vídeo que coloco aqui. Infelizmente, só tem o começo dela. O “clímax” da cena, entretanto, estampa o cartaz do filme(acima). Algo raro, de uma singeleza irresistível, da qual só Kurosawa parece ser capaz.


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