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Até que enfim chegou a nossa vez – II

09/07/2010

Em uma ótima conversa com alguns amigos, reapareceu o tema da tardia, porém bem-vinda, aparição dos adolescentes de classe média no cinema brasileiro, assunto já abordado aqui a partir do exemplo de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. O papo enveredou pelas opções e maneiras de tratar questões como o valor da amizade, o tabu da virgindade, a paquera, os segredos, as birras, a rebeldia etc. Nessa toada, entraram na pauta mais dois filmes brasileiros: À Deriva, de Heitor Dhalia, que eu tinha esquecido de citar naquele post e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, que eu apenas mencionei no final do texto.

São dois ótimos modelos de um tratamento muito sensível para esses pontos polêmicos sobre a adolescência. A solução adotada: lirismo, algo não muito comum e difícil de ser aplicado. À Deriva poderia facilmente se passar por um filme europeu, pois tem a pinta de muitos dos ótimos filmes que a França, por exemplo, produz atualmente. Definitivamente, não parece brasileiro. Não há tese social explícita no discurso dos personagens, tiros disparados, cafetões e o principal: não há necessariamente uma cor local. Mesmo a história se passando em um lugar litorâneo e falando de coisas como infidelidade e sexo, Dhalia deixa claro que é um filme de personagens e conflitos universais, onde tudo é mostrado com muita poesia, trabalhando mais com a sugestão e o poder metafórico de lindas imagens do que o escancarar do explícito. O título do filme alude à condição dos personagens e de suas emoções, o que já se coloca na bela primeira cena, em que pai e filha bóiam no mar e olham frontalmente para o sol, bem acima deles. O enredo conta a história de Filipa (Laura Leto, muito bonitinha), uma garota de 14 anos que, além de estar passando por transformações naturais, descobre que seu pai (Vincent Cassel) é infiel e tem um caso com uma estrangeira.

Antes que o Mundo Acabe é tão encantador quanto. Aqui a história é de Daniel, um moleque de 15 anos, que mora em Pedra Grande, uma cidadezinha do Rio Grande do Sul. Não conheceu o pai, que agora resolve aparecer, tem uma “namorada” que não sabe o que quer e seu melhor amigo foi acusado de roubo. A paisagem é mais rural e isso também influencia certas temáticas dentro do filme, mas a graça dele é, de novo, o lirismo.

Assim como As Melhores Coisas e À Deriva, o filme não impregna o roteiro de um texto carregado para retratar a juventude. Prefere o universo das expressões, gestos e cenas com aquela cara de clipe bonitinho. É curioso o quanto coisas aparentemente insignificantes que os adolescentes fazem ficam maiores na tela e nos emocionam. É o grupinho de garotos que andam de bicicleta juntos, a rodinha na hora do intervalo, colocar a cabeça pra fora do ônibus da excursão, o jeito de sentar abraçando os joelhos e muitos outros símbolos que estão presentes nos 3 filmes. Claro que há também certa romantização que faz esses filmes escaparem do mero retrato. Apesar de também ilustrarem os problemas dessa fase da vida, terminam de maneira muito positiva, reforçando um lado doce e mágico de ser adolescente. Nos 3 casos, as personagens femininas são encantadoras, pois – e aí vem uma visão pessoal – fisicamente já evoluíram, mas ainda têm aquele lado “moleca”, com um olhar empolgante, típico de quem tem muita vontade de descobrir milhões de coisas que ainda não sabe. E talvez seja isso uma das coisas mais gostosas dessa fase: querer descobrir o mundo. Não importa se depois serão corrompidos ou verão que a vida não é nada do que pensavam. A curiosidade e a empolgação, a energia, são marcantes e fazem valer à pena. O importante é aproveitar, antes que o mundo acabe.

A conseqüência de ver filmes que se comunicam tão diretamente com o nosso passado é uma inevitável nostalgia e até uma auto-avaliação, do tipo “será que aproveitei, será que fui feliz?”. Uma vez li uma frase atribuída a Oscar Wilde, que se lamentava: “Foi-se a juventude e eu não beijei todas as bocas”. Longe de tal pessimismo, lembro da minha recente adolescência com muito carinho, mas ainda sentindo uma pontinha de inveja: não sei se andei tanto de bicicleta quanto deveria.

Abaixo, os trailers dos dois filmes:

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Até que enfim chegou a nossa vez

07/05/2010

Admito: retratar a adolescência não deve ser tarefa fácil. Pelo menos é a essa conclusão que chego ao pensar nos filmes que estampam os teens na tela. Em Hollywood, o cinema comercial nos passa a mensagem de que só existem dois tipos de adolescentes: os retardados mentais (vide American Pie e outros besteiróis) ou os problemáticos (vide Aos Treze e semelhantes). Em filmes independentes, geralmente é reservado ao adolescente um personagem bem bizarro, como é o caso de Pequena Miss Sunshine, em que o ótimo Paul Dano faz o papel de um jovem “emo” ficcionado por aviação. Tal padrão se verifica com freqüência também nos filmes europeus, ou nos chamados “filmes de arte”.

No Brasil, a coisa é ainda pior, já que a questão envolve classes sociais. Essa minha visão é polêmica, mas já encontrei muita gente que concorda: nossos cineastas, cuja imensa maioria vem de famílias ricas ou de classe média, parecem ter um peso na consciência, uma dívida a ser paga. Isso se reflete na já velha conhecida tendência documental do cinema brasileiro. Muitos realizadores julgam necessário mostrar a realidade dos menos desfavorecidos e acham isso suficiente para terem um bom filme. “Não preciso de uma trama, a unidade dramática já está na própria vida dessa gente”, ouvi de alguém por aí. Não concordo. Ainda bem que nem todos pensam assim e que temos cineastas que conseguem fazer as duas coisas: há a profusão de um discurso social, mas ele é colocado de maneira sutil e sempre apoiado por ótimas histórias e personagens fortes.

Na verdade, o que interessa para este post – perdoem-me pela divagação acima – é que os jovens da periferia, os adolescentes favelados, são, mal ou bem, representados pelo cinema e pela TV. Cidade dos homens, por exemplo, pareceu ter feito isso com qualidade. O que ocorre é que, nesses filmes ou séries de tendência mais naturalista, há uma lacuna, um vazio. Falta, no conjunto geral das obras, a aparição de uma grande camada da sociedade brasileira. Um grupo muito presente na realidade é esquecido, um tipo de gente que é pouco mostrada: os adolescentes de classe média.

Não, isso não é um choro mimado de quem não se sente representado nos filmes nacionais. Não é simplesmente uma questão de “falem um pouco de mim”, já que fui um adolescente de classe média. Só acho que é um assunto riquíssimo para ser tão mal aproveitado.

Pois bem, essa ausência parece ter chegado ao fim. E um dos condutores dessa aparente nova onda é essa delícia de filme que é As Melhores Coisas do Mundo, da Laís Bodanzky. Ela, que já fez Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade, renova a parceria com Luiz Bolognesi, seu marido, que fez um roteiro baseado na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. No filme, Mano (Francisco Miguez, clone do meu primo) é um garoto de 15 anos que está passando por um processo de amadurecimento. Está aprendendo a tocar violão, gosta da garota mais gostosa do colégio, tem um irmão com problemas sentimentais e ainda tem de lidar com a separação dos pais por um motivo que o constrange. Sua melhor amiga, Carol (Gabriela Rocha), faz o tipo “garota de conteúdo”, só anda com os garotos e nutre uma paixão pelo professor de física, vivido por Caio Blat. Além de Blat, Denise Fraga e Zé Carlos Machado, como os pais de Mano, e Paulo Vilhena, como o professor de violão, completam os famosos do elenco. O resto é composto de atores ainda em início de carreira, como Fiuk, ou de garotos “pescados” pelas oficinas preparatórias, como é o caso do casal principal. Sendo sincero, molecada boa pra caramba!

O casal principal, interpretado por Francisco Miguez e Gabriela Rocha

Um dos títulos alternativos para o longa era Agora é Minha Vez. Muito sugestivo. Foi assim que me senti vendo o filme. Era a minha vez: o filme é sobre mim, sobre a minha geração, sobre meus amigos, sobre nós. Muitas das situações típicas pelas quais todo adolescente passa estão ali, retratadas com sensibilidade e muito cuidado. O jovem não é débil mental e nem ignóbil. Tem problemas, mas não é potencialmente problemático, como os drogados do cinema americano. Os conflitos são aqueles que todo mundo tem: a família, a crise existencial, a aceitação na escola, a perda de virgindade, a paixão não correspondida, o blog pretensiosamente literário (xiii, sem gracinhas hein), o amorzinho pela melhor amiga, as fotos comprometedoras no celular, os bilhetinhos na aula, o jogo da verdade etc.

Mas esqueça a artificialidade e o jogo sujo de estereótipos que ocorre em Malhação. Aqui tudo parece verdadeiro. Não há o padrão Globo de beleza e dicção perfeita. Apesar de ser fictício e com boas doses de lirismo, o filme quer mostrar “como é”. Assim, a identificação de quem tem a mesma idade que eu com o filme é quase inevitável. No meu caso, até a música foi a mesma. Em cada momento do filme, algum personagem me parecia muito representativo. O roteiro, muito bem costurado, vai apresentando as situações características aos poucos, de forma natural, originando ótimas cenas. Uma delas é o momento em que o pai de Mano conversa com os filhos sobre a separação, quando surge aquele discurso hipócrita: “Eu amei muito a sua mãe, os momentos que vivemos juntos foram ótimos”. “Amou o caralho”, diz a narração em off, que é muito bem dosada: aparece circunstancialmente, quando a consciência do personagem não agüenta mais, precisa gritar. Não é aquele chatíssimo guia didático comum nos filmes do Jorge Furtado.

Aliás, de dosagem a Laís entende. Nada é exagerado. O filme tem momentos tristes e felizes, depressão e humor, assim como a vida de qualquer adolescente. Vem daí, talvez, o sucesso do filme, tanto de crítica quanto de público. O público mais jovem se enxerga na tela e a crítica reconhece os méritos artísticos da produção, saudados com os prêmios principais no Festival de Pernambuco. Acompanhando a “moda”, mais dois filmes recentes tratam desse assunto espinhoso: Os Famosos e os Duendes da Morte, de Emir Filho, e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiz Azevedo. Já tava na hora né!


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