Às vezes Deus exagera

Publicado 02/08/2010 por ivanlord
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Scarlett Johansson

As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.

Descobri este blog há algum tempo e, na hora, lembrei-me dessa polêmica frase de Vinicius Moraes. Na verdade, eu até agora não sei exatamente o motivo de tanta polêmica. Talvez seja porque o verso é, geralmente, usado com exagero e sob uma perspectiva machista. Mas Vinícius não é isso mesmo, apesar de ter inegável talento poético? Receita de Mulher não é um texto preconceituoso, com uma visão arcaica e ultrapassada sobre o que deve ser a mulher ideal? Até pode ser, a vida e obra do velho Vinicius indicam que ele não apenas era mulherengo, como julgava a beleza um elemento capital. Não é à toa que um número expressivo de suas canções com Tom Jobim e muitos outros sucessos da Bossa Nova faziam da exaltação à beleza feminina o eixo elementar das letras.

Voltando ao blog, os autores (Miguel Marujo e um perfil online que atende como “Sal”) são, ao que me parece, portugueses ou, no mínimo, têm forte origem lusitana. Optaram por construir um site dedicado a imagens de mulheres nuas ou seminuas. Atrizes, cantoras, modelos, famosas de todo o tipo em trajes curtos ou mostrando tudo. Mas não, o site não é um antro de pornografia. Encaixa-se melhor como um divulgador de belas imagens, já que as fotografias fogem do óbvio e costumam mostrar, com extremo bom gosto, o melhor de mulheres já extraordinariamente bonitas e de outras que não chegam a tanto. Por meio do subtítulo Até que a vista nos doa. Horas de contemplação , o objetivo do site se elucida: contemplar, admirar a beleza, que talvez não seja tão fundamental, mas, quando presente, é muito poderosa.

Se não é uma visita obrigatória e nem estampa um conteúdo essencial para que sejamos bem informados, o site mereceria uma pitada de nossa atenção por exibir o que muitos chamam de belo. E, matem-me os pseudo-intelectuais, é sim a beleza uma das grandes virtudes que uma pessoa pode ter.

 

 

Natalie Portman

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Coisa pra gente baixinha

Publicado 12/07/2010 por ivanlord
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Os Sete Anões, de Branca de Neve

Não me lembro de ter escrito sobre futebol aqui antes. Hoje, claro, seria uma oportunidade extraordinária para lançar minhas visões sobre o esporte, enganchando na final da Copa do Mundo. Tudo bem, aceito comentar sobre a vitória da Espanha. Só peço a permissão para, brevemente, esclarecer uma posição ideológica e muito firme de minha parte em relação à polêmica atual sobre o “futebol de resultados”, “futebol feio”, em detrimento do “futebol arte”, do “espetáculo” etc.

Sou romântico em diversas coisas. Uma delas é a admiração pelo futebol. Fico pasmo quando sou obrigado a aturar aqueles discursos de treinadores e futebolistas que dizem que ganhar de 1×0 é goleada, “o que importa são os 3 pontos” etc. Minha única birra com Muricy Ramalho, ex-treinador do meu time, era a respeito dessa visão funcionalista que ele tinha do jogo, o que o fazia adotar um esquema pragmático que visava apenas o resultado, cruzando bolas para o centroavante e não aproveitando, ao meu ver, os potenciais talentos que o São Paulo possuía. Julgo esse tipo de pensamento – “o que vale é o resultado” – limitador em qualquer esporte, não apenas no futebol. Abordar apenas o lado competitivo é reduzir a prática a uma guerra e ignorar o prazer de jogar bola e a beleza plástica das jogadas que fizeram o esporte ser o que é hoje.

No entanto, tento entender essa importância do troféu, a importância do “ganhar a competição”. Proponho, então, uma questão filosófica primordial que pode parecer infantil, mas acredito que seja relevante: por que é importante ganhar uma competição? É pelo prêmio em dinheiro? Não, até acredito que seja um bom incentivo, mas é secundário. É legal ganhar uma competição pelo enorme valor simbólico que isso pode trazer: quem ganha é, teoricamente, O time, o que liquidou todos, o melhor do mundo, o que deixará o seu nome na história, aumentará seu status, fará os passes dos jogadores irem às alturas. O título de uma Copa do Mundo deve acarretar glória, riquezas, comprovação de superioridade, popularidade, reconhecimento, prestígio, respeito. Ok, concordo que ganhar uma Copa traz tudo isso, mas ressalto que não é apenas o troféu e nem é ele o principal responsável por todo o sucesso de uma seleção.

A história é a prova: quem fica na memória das pessoas e ganha respeito e tudo mais que eu acabei de mencionar é quem cria, quem inventa, quem revoluciona, quem impressiona, quem dá espetáculo. Diante dessas proezas, ganhar é secundário. Não vi a seleção de 1982 jogar. Mesmo assim, só o fato de eu lembrar quase a escalação inteira desse time e não lembrar nem de metade do time de 1994, que foi campeão, já comprova que a seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cia é muito mais respeitada, admirada e influente do que o Brasil retranqueiro de Parreira. O carrossel holandês de 1974 é outro exemplo. Influenciou gerações, mudou o jeito de jogar futebol e se tornou inesquecível. Não são esses prêmios muito maiores do que um título?

Portanto, diante da pergunta “Prefere dar espetáculo ou ganhar?”, opto pelos dois juntos, mas com prioridade para o primeiro, o segundo deveria vir como consequência. A Espanha fez isso: primeiro, deu espetáculo e, com isso, ganhou a Copa. Não foi fácil. Historicamente, o futebol espanhol seguia outro estilo: era truculento e bruto. A reforma veio aos poucos, graças a técnicos, relacionados ao futebol holandês, que foram embutindo a importância do passe, a valorização da posse de bola e a inteligência tática nas bases dos times espanhóis. Criar jogadas, movimentar-se, iludir e envolver o adversário com triangulações, dribles e passes imprevisíveis era a ordem, cujo resultado está nessa geração fantástica da seleção espanhola atual. Na Copa passada, jogaram assim e perderam. Insistiram. Sabiam que o domínio dos fundamentos técnicos e a ofensividade do futebol eram o melhor caminho. Contra uma Holanda irreconhecível, que cuspiu na própria história e prezou pelo antijogo o tempo todo, a Espanha soube usar uma base preciosa de jogadores – praticamente a mesma do Barcelona – para, finalmente, ser premiada pelo esforço e coragem de jogar um futebol bonito nos dias atuais.

E a consagração da Espanha é também a consagração dos baixinhos. Ah, finalmente! Em tempos em que o futebol perigava virar uma disputa meramente física, entre corpos mais ou menos resistentes, é um time de nanicos que se consagra. Claro, há jogadores altos na Espanha, como o ótimo e classudo zagueiro Piqué, mas quem move o time e faz a seleção ser esse timaço é um bando de baixinhos que mal ultrapassam os 1,70metros: Villa, Xavi e Iniesta, o glorioso pequenino que fez o gol do título hoje. Que o Professor Girafales me perdoe, mas ser baixinho também tem suas vantagens. Assim como Messi, Iniesta se aproveita de sua baixa estatura para passar literalmente no “meio” dos zagueiros e, com muita rapidez e equilíbrio, continuar a jogada. É nóis!

E viva a Espanha! E viva o futebol!

Villa e Fábregas, craques da bola

Xavi e Iniesta, motores do meio de campo espanhol

Sneijder, o baixinho craque da Holanda

Lionel Messi, atual melhor do mundo: 1,69 metros

Até que enfim chegou a nossa vez – II

Publicado 09/07/2010 por ivanlord
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Em uma ótima conversa com alguns amigos, reapareceu o tema da tardia, porém bem-vinda, aparição dos adolescentes de classe média no cinema brasileiro, assunto já abordado aqui a partir do exemplo de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. O papo enveredou pelas opções e maneiras de tratar questões como o valor da amizade, o tabu da virgindade, a paquera, os segredos, as birras, a rebeldia etc. Nessa toada, entraram na pauta mais dois filmes brasileiros: À Deriva, de Heitor Dhalia, que eu tinha esquecido de citar naquele post e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, que eu apenas mencionei no final do texto.

São dois ótimos modelos de um tratamento muito sensível para esses pontos polêmicos sobre a adolescência. A solução adotada: lirismo, algo não muito comum e difícil de ser aplicado. À Deriva poderia facilmente se passar por um filme europeu, pois tem a pinta de muitos dos ótimos filmes que a França, por exemplo, produz atualmente. Definitivamente, não parece brasileiro. Não há tese social explícita no discurso dos personagens, tiros disparados, cafetões e o principal: não há necessariamente uma cor local. Mesmo a história se passando em um lugar litorâneo e falando de coisas como infidelidade e sexo, Dhalia deixa claro que é um filme de personagens e conflitos universais, onde tudo é mostrado com muita poesia, trabalhando mais com a sugestão e o poder metafórico de lindas imagens do que o escancarar do explícito. O título do filme alude à condição dos personagens e de suas emoções, o que já se coloca na bela primeira cena, em que pai e filha bóiam no mar e olham frontalmente para o sol, bem acima deles. O enredo conta a história de Filipa (Laura Leto, muito bonitinha), uma garota de 14 anos que, além de estar passando por transformações naturais, descobre que seu pai (Vincent Cassel) é infiel e tem um caso com uma estrangeira.

Antes que o Mundo Acabe é tão encantador quanto. Aqui a história é de Daniel, um moleque de 15 anos, que mora em Pedra Grande, uma cidadezinha do Rio Grande do Sul. Não conheceu o pai, que agora resolve aparecer, tem uma “namorada” que não sabe o que quer e seu melhor amigo foi acusado de roubo. A paisagem é mais rural e isso também influencia certas temáticas dentro do filme, mas a graça dele é, de novo, o lirismo.

Assim como As Melhores Coisas e À Deriva, o filme não impregna o roteiro de um texto carregado para retratar a juventude. Prefere o universo das expressões, gestos e cenas com aquela cara de clipe bonitinho. É curioso o quanto coisas aparentemente insignificantes que os adolescentes fazem ficam maiores na tela e nos emocionam. É o grupinho de garotos que andam de bicicleta juntos, a rodinha na hora do intervalo, colocar a cabeça pra fora do ônibus da excursão, o jeito de sentar abraçando os joelhos e muitos outros símbolos que estão presentes nos 3 filmes. Claro que há também certa romantização que faz esses filmes escaparem do mero retrato. Apesar de também ilustrarem os problemas dessa fase da vida, terminam de maneira muito positiva, reforçando um lado doce e mágico de ser adolescente. Nos 3 casos, as personagens femininas são encantadoras, pois – e aí vem uma visão pessoal – fisicamente já evoluíram, mas ainda têm aquele lado “moleca”, com um olhar empolgante, típico de quem tem muita vontade de descobrir milhões de coisas que ainda não sabe. E talvez seja isso uma das coisas mais gostosas dessa fase: querer descobrir o mundo. Não importa se depois serão corrompidos ou verão que a vida não é nada do que pensavam. A curiosidade e a empolgação, a energia, são marcantes e fazem valer à pena. O importante é aproveitar, antes que o mundo acabe.

A conseqüência de ver filmes que se comunicam tão diretamente com o nosso passado é uma inevitável nostalgia e até uma auto-avaliação, do tipo “será que aproveitei, será que fui feliz?”. Uma vez li uma frase atribuída a Oscar Wilde, que se lamentava: “Foi-se a juventude e eu não beijei todas as bocas”. Longe de tal pessimismo, lembro da minha recente adolescência com muito carinho, mas ainda sentindo uma pontinha de inveja: não sei se andei tanto de bicicleta quanto deveria.

Abaixo, os trailers dos dois filmes:

Lágrimas de Sangue

Publicado 06/07/2010 por ivanlord
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Certo, os vampiros estão na moda. Não só no cinema, com a saga teen Crepúsculo, mas também na TV, com séries como True Blood e Vampire Diaries. Tais obras, principalmente as duas primeiras, abordam a mitologia dos vampiros humanizando-os e mostrando, antes de tudo, os embaraços de sua condição. Nelas, ser vampiro não é só ter maior força física e caninos afiados; ser vampiro é também obstáculo para a realização de muitos desejos e vontades.

Se isso não é novidade, a tendência do vampiro deprê (como diz uma amiga minha) é forte. Em muitos dos livros e filmes mais antigos, os vampiros, ao contrário da cartilha atual, são criaturas essencialmente aterrorizantes e soberanas na realização de suas aspirações. Mesmo Bram Stoker e Anne Rice, dois escritores que aprofundam mais os personagens com presas, não fogem da tradição de tratar os vampiros como seres fantásticos, monstruosos e temíveis. Claro que se pode perceber no Drácula do Murnau, por exemplo, certa angústia na figura do Conde Orlok, mas o fundamental para a atmosfera expressionista do filme é o medo que Nosferatu causa – ou causou.

Esse tom de invencibilidade parece ter se unido ao poder de sedução e tornado o vampiro, principalmente o vampiro do cinema americano, uma figura venerável, uma verdadeira autoridade. Na década de 80, A Hora do Espanto e alguns filmes do John Carpenter ajudaram a solidificar a figura do vampiro como um ser necessariamente bonito, irresistível, elegante, superior não só fisicamente, mas também intelectualmente, psicologicamente, espiritualmente. O único defeito: ser uma criatura das trevas, pretexto suficiente para que seja eliminado pelo mocinho.

Porém, a nova onda é o vampiro ser o mocinho. Nada de errado, trata-se de uma visão como qualquer outra e que anda bem difundida por aí. Contudo, o caso de Crepúsculo é um exagero. Arrisquei-me a ler o 1º livro da série numa crise ética do tipo “Como vou criticar se não conheço?”. Mas não consegui ler inteiro. Tudo bem Stephenie Meyer não querer que se enfie uma estaca no vampiro pálido, mas ela parece desejar que sintamos pena do cara. E nem isso ela consegue. Ao contrário de Harry Potter, a saga do deprê descorado não é, a meu ver, uma boa obra de literatura juvenil. É mal escrito, mal costurado, os personagens são fracos e mesmo o mote principal do amor impossível – que costuma dar certo – transforma a história numa coisa muito, muito chata. Os filmes não são melhores do que isso. Exaltam um sentimentalismo de forma que vários dos elementos que ajudaram a formar a figura mitológica do vampiro se dissolveram. É pedir para esquecer o Conde Drácula, pois Edward Cullen é vegetariano – não se alimenta de sangue humano – e virgem – vive em conflito numa relação demasiadamente contida com Bella Swam.

Por essas e outras que gosto bastante de True Blood, principalmente por equilibrar bem os elementos ao redor dos vampiros: eles são cheios de problemas e têm seus dramas pessoais muito bem delineados, mas ainda causam medo, seduzem e são sexualmente engenhosos. Abordando a coexistência entre vampiros e humanos, a série da HBO narra o amor inusitado entre o vampiro Bill Compton e a graciosa Sookie Stackhouse, uma telepata – ótima interpretação de Anna Paquin. Há também metamorfos e lobisomens, mas nada é de plástico: esses personagens têm história e suas conexões com a linha principal são coerentes, não são meros tapa buracos. A qualidade das subtramas alivia a carga melodramática em cima do casal principal e faz a série ganhar consistência. Além disso, a série é um grande exemplo de como a ficção e componentes fantásticos podem dizer muito sobre a realidade. Para aqueles que desgostam do universo mágico ou da fantasia de algumas obras por não serem “reais”, o drama da vampira Jessica Hamby é um ótimo exemplo. Ela é uma jovem que foi transformada em vampira, mas não consegue se adaptar à sua nova condição. É uma adolescente cheia de inseguranças e dúvidas sobre o que fazer, como fazer, onde fazer. Há algo mais real que isso?

Com um tema parecido, há um filme recente (2008) que considero uma verdadeira obra-prima do terror: Deixa Ela Entrar, um longa sueco, do diretor Tomas Alfredson, que, de tão bom, não me permite uma análise que sequer se aproxime do que o filme pode oferecer. Só digo que, após filmes de terror, é normal ouvir da boca de quem estava assistindo certos adjetivos comuns ao gênero: horripilante, fantástico, “dá muito medo”. No entanto, o primeiro elogio que me veio à cabeça após assistir o filme foi “lindo”. Sim, alguns dizem ser o filme de terror mais fofo da história. Diria que é de tirar o fôlego.

Nosferatu (1922)

O vampiro Valek, em "Vampiros", de John Carpenter

Tudo bem ser deprê, mas, na boa, o cara é insosso!

Um filme de terror que fala sobre a amizade como poucos

Novela?

Publicado 06/06/2010 por ivanlord
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Às vezes me surpreendo com o quanto sou brega. Ou, pelo menos, mais do que gostaria de ser. Um dos sintomas dessa minha patologia é um gosto, não necessariamente explicável, por certos melodramas novelescos, daqueles bem afetados e apelativos. Coisas como as forçosas cenas com crianças fofinhas, idosos sofrendo com sua difícil condição, amor de mãe e filha, pai e filho etc.

Ocorre, entretanto, que estava tentando uma maior guinada intelectual – uma fuga desses produtos comerciais e popularescos que apelam às nossas carências, fazendo com que choremos. Algo como os últimos filmes do Will Smith ou as novelas do Manoel Carlos. Opa, disse novelas do Manoel Carlos? Sim, admito, era uma criança noveleira. Gostava de acompanhar a das oito, prática que continuou enquanto ia crescendo e só foi interrompida devido à notável (ou será impressão?) queda de qualidade: os mesmos temas foram tratados à exaustão, faltou criatividade tanto na forma quanto no conteúdo, os carismáticos atores globais envelheceram.

Trata-se de uma crise de transição que talvez ainda esteja acontecendo e foi acentuada pela concorrência das novas mídias – hoje, o mínimo desgosto nem é necessário para que a pessoa saia da frente da televisão e vá baixar a sua série favorita na internet. A alteração dos elencos é inevitável e acontece de forma mais ou menos natural, mesmo que ainda tenhamos que suportar o José Mayer fazendo papel de galã. Achar novos autores, por outro lado, não é tão simples. Quem faz novela no Brasil são os mesmos caras há 30 anos. Difícil manter a qualidade com um grupo tão diminuto de bons autores. Por mais que existam novas histórias, são os mesmos jeitos de contar, os mesmos estilos se alternando. Ninguém com os neurônios no lugar aguenta mais o Aguinaldo Silva e seu heroísmo fácil ou o folclorismo insuportável da Glória Perez. A teledramaturgia brasileira já foi reconhecida mundo afora como produtora de ótimas telenovelas, mas hoje amarga o “mais do mesmo” ou “o pior do mesmo”.

Uma das formas que a Globo encontrou de diversificar a audiência e, ao mesmo tempo, relembrar bons momentos de produção televisiva foi a criação do VIVA, um novo canal pago que se propõe a revisitar séries e novelas antigas da TV Globo. Na programação, você vai encontrar seriados como Sai de Baixo, A Comédia da Vida Privada e outras pérolas do passado. Entre as novelas, o canal reprisa uma que gosto muito: Por Amor, do Manoel Carlos, que passou em 1997.

Eu era uma criancinha chata, mas várias cenas me marcaram. Tanto que, hoje, sou capaz de lembrar diálogos inteiros, sei os nomes dos personagens assim que eles aparecem, lembro das sequências etc. Tive a oportunidade de rever alguns trechos dela, quando foi re-exibida no Vale a pena ver de novo.

Assim como todos os outros autores de novela, Manoel Carlos tem características próprias que se repetem em suas novelas. Não é só a fixação com o nome Helena (sempre a personagem principal), mas a maneira de estruturar os diversos núcleos, a quantidade de melodrama, as diversas filosofias (baratas ou não) embutidas nos diálogos.

Maneco sempre recebeu uma acusação: só falava dos ricos, dos endinheirados. Negligenciaria o aspecto social ao abordar uma realidade sem favelados, onde o Rio de Janeiro se limita aos bairros do Leblon, Barra da Tijuca, Copacabana. Não é uma completa verdade, visto que há, sim, núcleos menos abastecidos financeiramente. Mas, sem dúvida, há um predomínio das classes mais ricas em suas novelas. Os críticos esquecem, porém, de observar que isso força o autor a ter de criar conflitos humanos e universais para que seus personagens ganhem força e a narrativa caminhe. Não há uma personagem que veio de baixo e acendeu socialmente graças a sua perseverança (Senhora do Destino) ou uma garota que quer ir para os Estados Unidos ilegalmente (América). Com os personagens de Maneco, o dinheiro ou o sucesso profissional não são o grande objetivo porque eles já têm isso. Por que então sofrem? Pelo quê vão lutar? Quais são seus objetivos? Por que torcemos por eles e compramos suas causas?

No caso de Por Amor, como o próprio título já entrega, os acontecimentos estão todos relacionados à capacidade de amar alguém e, mais ainda, o quanto isso pode ser forte o suficiente para que alguém seja capaz de fazer coisas inimagináveis. É uma novela que fala de pessoas que amam demais. As atitudes dos personagens têm no amor sua justificativa maior, mas são articuladas de maneira interessante: o amor constrói muito mais que o mocinho e a mocinha, constrói também o vilão, a coitada, a invejosa, o arrependido.

A habilidade de um autor está em fazer, através do texto e da elaboração dos personagens, com que nos envolvamos com sua história. Numa novela em que as ações são pautadas no aspecto emocional, a trama narrativa pode extrapolar os limites do coerente. Uma mãe e uma filha que engravidam ao mesmo tempo e fazem o parto no mesmo dia já é forçar muito a barra. Então o bebê da filha morre logo após nascer e a mãe, com a ajuda de um médico, troca o bebê morto pelo seu bebê, vivo e saudável. Em segundos de desespero, Helena cometeu esse crime que envolvia muitas pessoas além dela e da filha. É o segredo que sustentará a trama até o fim. Posto assim, num texto corrido de um blog despretensioso, parece algo extremamente ridículo e inverossímil. Numa lógica racional e naturalista, é, de fato, um evento bem improvável. Mas a qualidade do texto – que é sedutor, filosófico, vai nos conquistando aos poucos – e o trabalho de ótimos atores quase faz com que esqueçamos de dizer o “Ah, até parece!” e digamos “Nossa senhora!”. Não só aceitamos o que aconteceu, como perdoamos a personagem no fim.

Para o bem da verdade, nunca mais assisti a uma novela que considerasse tão visceral no que cabe ao drama. O próprio Manoel Carlos não conseguiu, a meu ver, repetir a dose em seus outros trabalhos. Em Por Amor, vários dos elementos shakesperianos, sofoclianos, euripidianos, foram tratados com autoridade pelo texto. Do contrário, tudo pareceria patético, artificial e enojado ao extremo.

Antes que eu me esqueça, uma grande responsável por “levar-nos” a embarcar na trama é a trilha sonora. Uma interpretação da Zizi Possi para Per Amore embalava o casal principal. Mas a minha preferida é a canção de abertura: Falando de Amor, de Tom Jobim, uma das coisas mais lindas já feitas na MPB e que, na novela, apresentou-se pelas vozes do Quarteto em Cy e do MPB4.

Quem não lembra do bêbado Orestes (Paulo José)?

Where the hell is my vicodin?

Publicado 31/05/2010 por ivanlord
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Barba por fazer, mochila nas costas e um andar inconfundível: junto com os movimentos da perna direita, uma bengala – marca de um dos personagens mais complexos da história da TV americana.

O Dr. Gregory House é um médico diferenciado. Salva muitas vidas, mas não tem o desígnio moral do herói, muito menos o comportamento típico dos médicos de seriados antigos.  O que o fez ser um ícone da medicina diagnóstica foi a paixão pelo desafio de resolver os mais difíceis enigmas médicos e não a vontade de ajudar as pessoas. Pouco importa o paciente, o prazer de House é justamente ver casos bizarros, impensáveis e resolvê-los com sagacidade. Para isso, ele prega uma filosofia prática anti-Patch Adams: o médico deve estar o mais distante possível do paciente. É dessa maneira, sem nem sequer guardar o nome dos enfermos, que o “detetive” House – a influência de Sherlock Holmes já foi admitida por David Shore, criador da série – soluciona os casos e descobre o “assassino” (a doença).

Egocêntrico, insubordinável, arrogante, indelicado, extremamente sarcástico, com mau-humor crônico e dotado de uma inteligência acima da média, o quase infalível House pode até ser considerado um anti-herói. Várias características de sua personalidade permitem que o encaixemos na categoria dos heróis pós-modernos; aqueles que salvam o mundo, mas são cheios de problemas, várias coisas os incomodam, a vida pessoal é uma tristeza. Como exemplo, Jack Bauer, Patrick Jane, Jason Bourne, Peter Parker, Jack Shepard e até o Batman, que, em O Cavaleiro das Trevas, sofre de amor não correspondido, algo inimaginável no mundo romântico de heróis a lá James Bond. House segue essa cartilha: não mantém distância apenas dos pacientes, mas do mundo. É um solitário natural. Como se não bastasse, um infarto na perna causou a deficiência que o faz mancar, além de levar ao vício no forte analgésico Vicodin.

O Dr. House é um ex-iluminista, alguém que acreditou ser o racionalismo científico a resposta para os problemas humanos, caindo em desilusão posteriormente. Sua misantropia tem uma justificativa: ele é um verdadeiro descrente da humanidade – não quer salvar o mundo – e eis a característica que o faz um personagem tão interessante e o difere dos heróis citados. Chamá-lo de cético é um eufemismo descabido.

A obsessão pela razão e pela verdade originou uma das frases mais famosas do médico: everybody lies. A sentença ganha sentido ao observar-se a quantidade de episódios em que a chave para o mistério é uma mentira de alguém (muitas vezes do próprio paciente), que é desmascarado por House no final. Mas vai além disso. Everybody lies é o slogan que representa a visão de mundo do personagem. Ele não acredita nas pessoas. A humanidade seria um antro onde pessoas mentem para as outras e para si mesmas, sendo, assim, infelizes. No entanto, para House, não basta saber a verdade, é necessário difundi-la. Sempre é melhor saber, diz o médico. Mesmo que saber também não origine alegria, pelo contrário. Temos então uma via de mão dupla: as pessoas acabam se afastando do médico enquanto ele parece não fazer questão de que esse processo se reverta. O oncologista Dr. Wilson é o único que o agüenta de verdade.

Mas a questão é: por que gostamos tanto desse babaca prepotente que espalha infelicidade por onde passa?

A quantidade de respostas diferentes para essa questão comprova a complexidade do personagem. Muitos fãs da série têm por House sentimentos conflitantes, paradoxais. Podemos admirá-lo pelo seu estrondoso acúmulo de conhecimento, o que o capacitou a salvar vidas. Mas jamais queremos ser que nem ele, porque ninguém quer sofrer daquele jeito; ninguém quer ter dores, ser sozinho, ser viciado. Rimos com ele, adoramos suas tiradas – sempre é legal ver personagens que insultam os outros com a verdade. Porém, também temos raiva quando ele trata alguém de forma desumana. Outro sentimento comum é a pena. Sim, de alguma maneira torcemos por ele e queremos que ele seja feliz. Mas House sempre estraga tudo, a infelicidade bate à porta. Mostra-se humano, sofre por afastar pessoas, arrepende-se, tem recaídas e é nesses momentos que a série cresce dramaticamente.

O Dr. House é um personagem inesquecível. Claro que os outros elementos de House M.D. contribuem. Os coadjuvantes, que antes eram meras escadas, foram adquirindo dramas próprios e a série continua empolgando em um dos seus principais méritos: o texto, ágil e surpreendente. Mas a grande jóia, o ouro da série, está na profundidade de Gregory House. Hugh Laurie, salvo engano o ator mais bem pago da TV americana, tem em suas mãos um personagem visceral.



House, um paciente difícil

Arte provocativa

Publicado 18/05/2010 por ivanlord
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Nos arredores do Vaticano e nos pouquíssimos países verdadeiramente católicos – ainda não sei se o Brasil o é, desconfio que existem no máximo 4 católicos de verdade aqui – a figura acima tem sido rechaçada por sua “ousadia desmedida” em desconstruir uma imagem de grande poder simbólico para os cristãos. Trata-se de um ensaio estampado pela revista Mag! e assinado por Zee Nunes e Andre Katopodis.

O fato reforça o poder da arte quando provocativa. É como se o artista, ao tocar em tabus ou lidar com a censura, tivesse seu potencial criativo aumentado. São tipos de obras que podem ficar para a história tanto por sua beleza, quanto pela polêmica que causaram. Quem não lembra do carro Holocausto, do criativo Paulo Barros (um peixe fora d’água em meio aos outros carnavalescos), que foi censurado no Carnaval de 2008?  Além, é claro, do óbvio exemplo das canções brasileiras surgidas na época da ditadura.Sim, existem aquelas que só provocam, mas mesmo essas já me conquistam, já arrancam de mim aquele sorriso de boca fechada.

E dei vários sorrisos maiores quando acordei hoje e vi as imagens abaixo, do americano J. Scott Campbell. A coleção se chama Fairytales Fantasies.

Bela Adormecida

Alice

Bela

Branca de Neve

Cinderela

Sininho

Madrasta da Branca de Neve

Pequena Sereia

É apelativo? Distorce personagens da Disney? Sim. E é por isso que é genial. Acho até uma ideia  tardia. Afinal, quem nunca pensou a respeito do potencial sexual das princesas da Disney?  Sobre os desenhos acima, não consigo escolher o meu favorito. Só me decepcionei com a Alice, esperava mais.


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