Coisa pra gente baixinha

Os Sete Anões, de Branca de Neve

Não me lembro de ter escrito sobre futebol aqui antes. Hoje, claro, seria uma oportunidade extraordinária para lançar minhas visões sobre o esporte, enganchando na final da Copa do Mundo. Tudo bem, aceito comentar sobre a vitória da Espanha. Só peço a permissão para, brevemente, esclarecer uma posição ideológica e muito firme de minha parte em relação à polêmica atual sobre o “futebol de resultados”, “futebol feio”, em detrimento do “futebol arte”, do “espetáculo” etc.

Sou romântico em diversas coisas. Uma delas é a admiração pelo futebol. Fico pasmo quando sou obrigado a aturar aqueles discursos de treinadores e futebolistas que dizem que ganhar de 1×0 é goleada, “o que importa são os 3 pontos” etc. Minha única birra com Muricy Ramalho, ex-treinador do meu time, era a respeito dessa visão funcionalista que ele tinha do jogo, o que o fazia adotar um esquema pragmático que visava apenas o resultado, cruzando bolas para o centroavante e não aproveitando, ao meu ver, os potenciais talentos que o São Paulo possuía. Julgo esse tipo de pensamento – “o que vale é o resultado” – limitador em qualquer esporte, não apenas no futebol. Abordar apenas o lado competitivo é reduzir a prática a uma guerra e ignorar o prazer de jogar bola e a beleza plástica das jogadas que fizeram o esporte ser o que é hoje.

No entanto, tento entender essa importância do troféu, a importância do “ganhar a competição”. Proponho, então, uma questão filosófica primordial que pode parecer infantil, mas acredito que seja relevante: por que é importante ganhar uma competição? É pelo prêmio em dinheiro? Não, até acredito que seja um bom incentivo, mas é secundário. É legal ganhar uma competição pelo enorme valor simbólico que isso pode trazer: quem ganha é, teoricamente, O time, o que liquidou todos, o melhor do mundo, o que deixará o seu nome na história, aumentará seu status, fará os passes dos jogadores irem às alturas. O título de uma Copa do Mundo deve acarretar glória, riquezas, comprovação de superioridade, popularidade, reconhecimento, prestígio, respeito. Ok, concordo que ganhar uma Copa traz tudo isso, mas ressalto que não é apenas o troféu e nem é ele o principal responsável por todo o sucesso de uma seleção.

A história é a prova: quem fica na memória das pessoas e ganha respeito e tudo mais que eu acabei de mencionar é quem cria, quem inventa, quem revoluciona, quem impressiona, quem dá espetáculo. Diante dessas proezas, ganhar é secundário. Não vi a seleção de 1982 jogar. Mesmo assim, só o fato de eu lembrar quase a escalação inteira desse time e não lembrar nem de metade do time de 1994, que foi campeão, já comprova que a seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cia é muito mais respeitada, admirada e influente do que o Brasil retranqueiro de Parreira. O carrossel holandês de 1974 é outro exemplo. Influenciou gerações, mudou o jeito de jogar futebol e se tornou inesquecível. Não são esses prêmios muito maiores do que um título?

Portanto, diante da pergunta “Prefere dar espetáculo ou ganhar?”, opto pelos dois juntos, mas com prioridade para o primeiro, o segundo deveria vir como consequência. A Espanha fez isso: primeiro, deu espetáculo e, com isso, ganhou a Copa. Não foi fácil. Historicamente, o futebol espanhol seguia outro estilo: era truculento e bruto. A reforma veio aos poucos, graças a técnicos, relacionados ao futebol holandês, que foram embutindo a importância do passe, a valorização da posse de bola e a inteligência tática nas bases dos times espanhóis. Criar jogadas, movimentar-se, iludir e envolver o adversário com triangulações, dribles e passes imprevisíveis era a ordem, cujo resultado está nessa geração fantástica da seleção espanhola atual. Na Copa passada, jogaram assim e perderam. Insistiram. Sabiam que o domínio dos fundamentos técnicos e a ofensividade do futebol eram o melhor caminho. Contra uma Holanda irreconhecível, que cuspiu na própria história e prezou pelo antijogo o tempo todo, a Espanha soube usar uma base preciosa de jogadores – praticamente a mesma do Barcelona – para, finalmente, ser premiada pelo esforço e coragem de jogar um futebol bonito nos dias atuais.

E a consagração da Espanha é também a consagração dos baixinhos. Ah, finalmente! Em tempos em que o futebol perigava virar uma disputa meramente física, entre corpos mais ou menos resistentes, é um time de nanicos que se consagra. Claro, há jogadores altos na Espanha, como o ótimo e classudo zagueiro Piqué, mas quem move o time e faz a seleção ser esse timaço é um bando de baixinhos que mal ultrapassam os 1,70metros: Villa, Xavi e Iniesta, o glorioso pequenino que fez o gol do título hoje. Que o Professor Girafales me perdoe, mas ser baixinho também tem suas vantagens. Assim como Messi, Iniesta se aproveita de sua baixa estatura para passar literalmente no “meio” dos zagueiros e, com muita rapidez e equilíbrio, continuar a jogada. É nóis!

E viva a Espanha! E viva o futebol!

Villa e Fábregas, craques da bola

Xavi e Iniesta, motores do meio de campo espanhol

Sneijder, o baixinho craque da Holanda

Lionel Messi, atual melhor do mundo: 1,69 metros

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5 Comentários em “Coisa pra gente baixinha”

  1. Ivan Says:

    É, Andrew, acho que a Argentina chegou até ali jogando pelada. Não tinha organização tática nenhuma e se salvou pelo talento de seus jogadores. A Espanha conseguiu unir as duas coisas – talento e inteligência tática – e talvez tenha ganho por isso.

  2. Andrew Says:

    Permito-me discordar do amigo brejeiro acima e afirmar que a Espanha não só apresentou o melhor futebol dessa Copa como a Alemanha, além de chutar uma Inglaterra perfeitamente bunda-mole, goleou uma Argentina que, não vmaos nos esquecer, era cotada para ser um dos grandes desastres dessa Copa. Claramente o Maradona só conseguiu passar com 100% devido à qualidade intrínseca dos jogadores argentinos atuais (que fique clara minha torcida pelos hermanos nessa copa).
    E agora, rebatendo o próprio blogueiro, vou ser extremamente breve. Sim, o futebol de espetáculo aliado aos resultados é muito mais interessante e fica mais marcado na história. Não nego que a Holanda de 1974 tenha feito muito mais nome e influenciado muito mais do que a sua contemporânea germânica. No entanto, há que se lembrar um sério obstáculo no que tange a priorização de um pelo outro. Poucos são os times que contam com verdadeiros craques nos seus elencos capazes de desequilibrar e mesmo dar show, possuindo uma certa segurança defensiva (mesmo que seja uma segurança agressiva como a espanhola). Assim, tendo de um lado os exemplos vitoriosos de Espanha e Barcelona, temos de outro embates entre times como por exemplo Arsenal e os grandes da Inglaterra no qual, embora o o primeiro seja evidentemente mais classudo e jogue o fino da bola, não ganha nada há um bom tempo.

  3. Karen Says:

    devo concordar com o Kaiser, hein!

  4. Gabriel R.M. Says:

    Possivelmente ainda estou sendo duvidoso ao dizer isso, pois estava acreditando numa vitória alemã, mas lá vai: pra mim, a Alemanha jogou mais bonito nessa copa e, pelos resultados, era a grande merecedora dessa taça. A Espanha só foi jogar bem contra o time de Löw: perdeu para Suíça, penou para fazer dois gols em Honduras e Chile e quase saiu no jogo contra o Paraguai (não falei do jogo contra Portugal propositalmente: são bundas-moles). Desencantou contra Alemanha, não deixou o adversário jogar e passou. Na final – putz! que final feia! – ganhou porque Robben não quis fazer dois gols. Aliás, acredito que seria mais justo, historicamente falando, a Holanda ganhar. Ela com três finais no currículo contra uma seleção que resolveu aparecer nos últimos tempos e nunca fez nada numa Copa. Achei lamentável.
    O seu texto ficou muito bom; o que lamento é ser a Espanha.

  5. Karen Says:

    claro que tinha que aproveitar pra defender sua baixa estatura, né!
    e a Espanha realmente tem uma coisa muito muito muito boa no futebol… Xabi Alonso! hahaha
    ótimo texto, Ivanzinho!


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