Até que enfim chegou a nossa vez – II

Em uma ótima conversa com alguns amigos, reapareceu o tema da tardia, porém bem-vinda, aparição dos adolescentes de classe média no cinema brasileiro, assunto já abordado aqui a partir do exemplo de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. O papo enveredou pelas opções e maneiras de tratar questões como o valor da amizade, o tabu da virgindade, a paquera, os segredos, as birras, a rebeldia etc. Nessa toada, entraram na pauta mais dois filmes brasileiros: À Deriva, de Heitor Dhalia, que eu tinha esquecido de citar naquele post e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, que eu apenas mencionei no final do texto.

São dois ótimos modelos de um tratamento muito sensível para esses pontos polêmicos sobre a adolescência. A solução adotada: lirismo, algo não muito comum e difícil de ser aplicado. À Deriva poderia facilmente se passar por um filme europeu, pois tem a pinta de muitos dos ótimos filmes que a França, por exemplo, produz atualmente. Definitivamente, não parece brasileiro. Não há tese social explícita no discurso dos personagens, tiros disparados, cafetões e o principal: não há necessariamente uma cor local. Mesmo a história se passando em um lugar litorâneo e falando de coisas como infidelidade e sexo, Dhalia deixa claro que é um filme de personagens e conflitos universais, onde tudo é mostrado com muita poesia, trabalhando mais com a sugestão e o poder metafórico de lindas imagens do que o escancarar do explícito. O título do filme alude à condição dos personagens e de suas emoções, o que já se coloca na bela primeira cena, em que pai e filha bóiam no mar e olham frontalmente para o sol, bem acima deles. O enredo conta a história de Filipa (Laura Leto, muito bonitinha), uma garota de 14 anos que, além de estar passando por transformações naturais, descobre que seu pai (Vincent Cassel) é infiel e tem um caso com uma estrangeira.

Antes que o Mundo Acabe é tão encantador quanto. Aqui a história é de Daniel, um moleque de 15 anos, que mora em Pedra Grande, uma cidadezinha do Rio Grande do Sul. Não conheceu o pai, que agora resolve aparecer, tem uma “namorada” que não sabe o que quer e seu melhor amigo foi acusado de roubo. A paisagem é mais rural e isso também influencia certas temáticas dentro do filme, mas a graça dele é, de novo, o lirismo.

Assim como As Melhores Coisas e À Deriva, o filme não impregna o roteiro de um texto carregado para retratar a juventude. Prefere o universo das expressões, gestos e cenas com aquela cara de clipe bonitinho. É curioso o quanto coisas aparentemente insignificantes que os adolescentes fazem ficam maiores na tela e nos emocionam. É o grupinho de garotos que andam de bicicleta juntos, a rodinha na hora do intervalo, colocar a cabeça pra fora do ônibus da excursão, o jeito de sentar abraçando os joelhos e muitos outros símbolos que estão presentes nos 3 filmes. Claro que há também certa romantização que faz esses filmes escaparem do mero retrato. Apesar de também ilustrarem os problemas dessa fase da vida, terminam de maneira muito positiva, reforçando um lado doce e mágico de ser adolescente. Nos 3 casos, as personagens femininas são encantadoras, pois – e aí vem uma visão pessoal – fisicamente já evoluíram, mas ainda têm aquele lado “moleca”, com um olhar empolgante, típico de quem tem muita vontade de descobrir milhões de coisas que ainda não sabe. E talvez seja isso uma das coisas mais gostosas dessa fase: querer descobrir o mundo. Não importa se depois serão corrompidos ou verão que a vida não é nada do que pensavam. A curiosidade e a empolgação, a energia, são marcantes e fazem valer à pena. O importante é aproveitar, antes que o mundo acabe.

A conseqüência de ver filmes que se comunicam tão diretamente com o nosso passado é uma inevitável nostalgia e até uma auto-avaliação, do tipo “será que aproveitei, será que fui feliz?”. Uma vez li uma frase atribuída a Oscar Wilde, que se lamentava: “Foi-se a juventude e eu não beijei todas as bocas”. Longe de tal pessimismo, lembro da minha recente adolescência com muito carinho, mas ainda sentindo uma pontinha de inveja: não sei se andei tanto de bicicleta quanto deveria.

Abaixo, os trailers dos dois filmes:

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8 Comentários em “Até que enfim chegou a nossa vez – II”

  1. ivanlord Says:

    Vá ao cinema, queridinha!

  2. Andrew Says:

    Citando um amigo meu biólogo: “o sistema nervoso é só uma distração evolutiva que nos permite viver mais tempo, o que realmente importa é a reprodução”.
    Mas enfim, me preocupa o progressivo valor edificador de filmes. Eles não são guias nem diretrizes e… tá, vou parar por aqui porque daqui a pouco serei linchado.

  3. ivanlord Says:

    Karen, um amigo me emprestou um dvd gravado. Já devolvi, mas acho que tem pra baixar por aí, não?

  4. Amanda Says:

    Ah, adorei também! É interessante a comparação com “À Deriva”, porque este é um filme teoricamente adulto, com temas bem mais sérios, mas que trata a adolescência com doçura. Curti o post!

  5. Karen Says:

    ow, você alugou isso aí ou baixou em algum lugar? só achei link para o ‘À Deriva’. :/

  6. Karen Says:

    vou procurar pra baixar isso aí, hein! curti a resenha.

    e eu tenho certeza de que não andei tanto de bicicleta quanto deveria. eu nem tinha uma! huehue

  7. Gabriel R.M. Says:

    É, torçamos para uma tendência de melhora do cinema brasileiro. Chega de favelas, tiros e polícia invadindo lugares. Parece que só temos isso!


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