Lágrimas de Sangue

Certo, os vampiros estão na moda. Não só no cinema, com a saga teen Crepúsculo, mas também na TV, com séries como True Blood e Vampire Diaries. Tais obras, principalmente as duas primeiras, abordam a mitologia dos vampiros humanizando-os e mostrando, antes de tudo, os embaraços de sua condição. Nelas, ser vampiro não é só ter maior força física e caninos afiados; ser vampiro é também obstáculo para a realização de muitos desejos e vontades.

Se isso não é novidade, a tendência do vampiro deprê (como diz uma amiga minha) é forte. Em muitos dos livros e filmes mais antigos, os vampiros, ao contrário da cartilha atual, são criaturas essencialmente aterrorizantes e soberanas na realização de suas aspirações. Mesmo Bram Stoker e Anne Rice, dois escritores que aprofundam mais os personagens com presas, não fogem da tradição de tratar os vampiros como seres fantásticos, monstruosos e temíveis. Claro que se pode perceber no Drácula do Murnau, por exemplo, certa angústia na figura do Conde Orlok, mas o fundamental para a atmosfera expressionista do filme é o medo que Nosferatu causa – ou causou.

Esse tom de invencibilidade parece ter se unido ao poder de sedução e tornado o vampiro, principalmente o vampiro do cinema americano, uma figura venerável, uma verdadeira autoridade. Na década de 80, A Hora do Espanto e alguns filmes do John Carpenter ajudaram a solidificar a figura do vampiro como um ser necessariamente bonito, irresistível, elegante, superior não só fisicamente, mas também intelectualmente, psicologicamente, espiritualmente. O único defeito: ser uma criatura das trevas, pretexto suficiente para que seja eliminado pelo mocinho.

Porém, a nova onda é o vampiro ser o mocinho. Nada de errado, trata-se de uma visão como qualquer outra e que anda bem difundida por aí. Contudo, o caso de Crepúsculo é um exagero. Arrisquei-me a ler o 1º livro da série numa crise ética do tipo “Como vou criticar se não conheço?”. Mas não consegui ler inteiro. Tudo bem Stephenie Meyer não querer que se enfie uma estaca no vampiro pálido, mas ela parece desejar que sintamos pena do cara. E nem isso ela consegue. Ao contrário de Harry Potter, a saga do deprê descorado não é, a meu ver, uma boa obra de literatura juvenil. É mal escrito, mal costurado, os personagens são fracos e mesmo o mote principal do amor impossível – que costuma dar certo – transforma a história numa coisa muito, muito chata. Os filmes não são melhores do que isso. Exaltam um sentimentalismo de forma que vários dos elementos que ajudaram a formar a figura mitológica do vampiro se dissolveram. É pedir para esquecer o Conde Drácula, pois Edward Cullen é vegetariano – não se alimenta de sangue humano – e virgem – vive em conflito numa relação demasiadamente contida com Bella Swam.

Por essas e outras que gosto bastante de True Blood, principalmente por equilibrar bem os elementos ao redor dos vampiros: eles são cheios de problemas e têm seus dramas pessoais muito bem delineados, mas ainda causam medo, seduzem e são sexualmente engenhosos. Abordando a coexistência entre vampiros e humanos, a série da HBO narra o amor inusitado entre o vampiro Bill Compton e a graciosa Sookie Stackhouse, uma telepata – ótima interpretação de Anna Paquin. Há também metamorfos e lobisomens, mas nada é de plástico: esses personagens têm história e suas conexões com a linha principal são coerentes, não são meros tapa buracos. A qualidade das subtramas alivia a carga melodramática em cima do casal principal e faz a série ganhar consistência. Além disso, a série é um grande exemplo de como a ficção e componentes fantásticos podem dizer muito sobre a realidade. Para aqueles que desgostam do universo mágico ou da fantasia de algumas obras por não serem “reais”, o drama da vampira Jessica Hamby é um ótimo exemplo. Ela é uma jovem que foi transformada em vampira, mas não consegue se adaptar à sua nova condição. É uma adolescente cheia de inseguranças e dúvidas sobre o que fazer, como fazer, onde fazer. Há algo mais real que isso?

Com um tema parecido, há um filme recente (2008) que considero uma verdadeira obra-prima do terror: Deixa Ela Entrar, um longa sueco, do diretor Tomas Alfredson, que, de tão bom, não me permite uma análise que sequer se aproxime do que o filme pode oferecer. Só digo que, após filmes de terror, é normal ouvir da boca de quem estava assistindo certos adjetivos comuns ao gênero: horripilante, fantástico, “dá muito medo”. No entanto, o primeiro elogio que me veio à cabeça após assistir o filme foi “lindo”. Sim, alguns dizem ser o filme de terror mais fofo da história. Diria que é de tirar o fôlego.

Nosferatu (1922)

O vampiro Valek, em "Vampiros", de John Carpenter

Tudo bem ser deprê, mas, na boa, o cara é insosso!

Um filme de terror que fala sobre a amizade como poucos

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3 Comentários em “Lágrimas de Sangue”

  1. Karen Says:

    tenho uma certa obsessão por continuar a ler os livros de uma série, mesmo que eu ache o primeiro uma bosta. dessa forma, li Crepúsculo e Lua Nova e… aimeudeusdocéuquecoisaruim. mas, como eu disse, sou doente mental (erm…) e quero ler os outros dois.

    quanto ao Deixe Ela Entrar… comecei a ver e dormi, hahahaha! mas dormi MUITO MESMO! vou tentar vê-lo novamente, huehue.

  2. Gabriel R.M. Says:

    Não sabia o que era “insosso” e fui procurar. De fato! Bem insosso.
    Realmente não acho que a autora do livro tenha pensado em fazer algo bom; ela pensou em fazer algo que faça a juventude pagar para vê-la para, com isso, ganhar grana.
    Está longe de ser uma boa história de vampiros.
    O sr. não citou, mas faço questão de exaltar “Entrevista Com O Vampiro”. Veio de um livro o qual não li; mas o filme mostra um pouco de tudo dito no post: tememos e corremos deles de tanto pavor!
    Crepúsculo está para o cinema assim como Steven Seagal está para a atuação: fraco e sem novidade, mas se fizer render dinheiro já está bom – pelo menos na acepção dos criadores.

  3. Mara Says:

    Suspiroa , gemidos e sangue é uma mistura de dar enjôo.
    Não me atrai a história com vampiros .
    Mas se analisarmos metafóricamente é perfeito : os vampiros existem sim , gente que quer sugar o seu sangue e sua vida..
    É bom ter sempre um alho ou um crucifixo de reserva …


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