Arquivo para julho 2010

Coisa pra gente baixinha

12/07/2010

Os Sete Anões, de Branca de Neve

Não me lembro de ter escrito sobre futebol aqui antes. Hoje, claro, seria uma oportunidade extraordinária para lançar minhas visões sobre o esporte, enganchando na final da Copa do Mundo. Tudo bem, aceito comentar sobre a vitória da Espanha. Só peço a permissão para, brevemente, esclarecer uma posição ideológica e muito firme de minha parte em relação à polêmica atual sobre o “futebol de resultados”, “futebol feio”, em detrimento do “futebol arte”, do “espetáculo” etc.

Sou romântico em diversas coisas. Uma delas é a admiração pelo futebol. Fico pasmo quando sou obrigado a aturar aqueles discursos de treinadores e futebolistas que dizem que ganhar de 1×0 é goleada, “o que importa são os 3 pontos” etc. Minha única birra com Muricy Ramalho, ex-treinador do meu time, era a respeito dessa visão funcionalista que ele tinha do jogo, o que o fazia adotar um esquema pragmático que visava apenas o resultado, cruzando bolas para o centroavante e não aproveitando, ao meu ver, os potenciais talentos que o São Paulo possuía. Julgo esse tipo de pensamento – “o que vale é o resultado” – limitador em qualquer esporte, não apenas no futebol. Abordar apenas o lado competitivo é reduzir a prática a uma guerra e ignorar o prazer de jogar bola e a beleza plástica das jogadas que fizeram o esporte ser o que é hoje.

No entanto, tento entender essa importância do troféu, a importância do “ganhar a competição”. Proponho, então, uma questão filosófica primordial que pode parecer infantil, mas acredito que seja relevante: por que é importante ganhar uma competição? É pelo prêmio em dinheiro? Não, até acredito que seja um bom incentivo, mas é secundário. É legal ganhar uma competição pelo enorme valor simbólico que isso pode trazer: quem ganha é, teoricamente, O time, o que liquidou todos, o melhor do mundo, o que deixará o seu nome na história, aumentará seu status, fará os passes dos jogadores irem às alturas. O título de uma Copa do Mundo deve acarretar glória, riquezas, comprovação de superioridade, popularidade, reconhecimento, prestígio, respeito. Ok, concordo que ganhar uma Copa traz tudo isso, mas ressalto que não é apenas o troféu e nem é ele o principal responsável por todo o sucesso de uma seleção.

A história é a prova: quem fica na memória das pessoas e ganha respeito e tudo mais que eu acabei de mencionar é quem cria, quem inventa, quem revoluciona, quem impressiona, quem dá espetáculo. Diante dessas proezas, ganhar é secundário. Não vi a seleção de 1982 jogar. Mesmo assim, só o fato de eu lembrar quase a escalação inteira desse time e não lembrar nem de metade do time de 1994, que foi campeão, já comprova que a seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cia é muito mais respeitada, admirada e influente do que o Brasil retranqueiro de Parreira. O carrossel holandês de 1974 é outro exemplo. Influenciou gerações, mudou o jeito de jogar futebol e se tornou inesquecível. Não são esses prêmios muito maiores do que um título?

Portanto, diante da pergunta “Prefere dar espetáculo ou ganhar?”, opto pelos dois juntos, mas com prioridade para o primeiro, o segundo deveria vir como consequência. A Espanha fez isso: primeiro, deu espetáculo e, com isso, ganhou a Copa. Não foi fácil. Historicamente, o futebol espanhol seguia outro estilo: era truculento e bruto. A reforma veio aos poucos, graças a técnicos, relacionados ao futebol holandês, que foram embutindo a importância do passe, a valorização da posse de bola e a inteligência tática nas bases dos times espanhóis. Criar jogadas, movimentar-se, iludir e envolver o adversário com triangulações, dribles e passes imprevisíveis era a ordem, cujo resultado está nessa geração fantástica da seleção espanhola atual. Na Copa passada, jogaram assim e perderam. Insistiram. Sabiam que o domínio dos fundamentos técnicos e a ofensividade do futebol eram o melhor caminho. Contra uma Holanda irreconhecível, que cuspiu na própria história e prezou pelo antijogo o tempo todo, a Espanha soube usar uma base preciosa de jogadores – praticamente a mesma do Barcelona – para, finalmente, ser premiada pelo esforço e coragem de jogar um futebol bonito nos dias atuais.

E a consagração da Espanha é também a consagração dos baixinhos. Ah, finalmente! Em tempos em que o futebol perigava virar uma disputa meramente física, entre corpos mais ou menos resistentes, é um time de nanicos que se consagra. Claro, há jogadores altos na Espanha, como o ótimo e classudo zagueiro Piqué, mas quem move o time e faz a seleção ser esse timaço é um bando de baixinhos que mal ultrapassam os 1,70metros: Villa, Xavi e Iniesta, o glorioso pequenino que fez o gol do título hoje. Que o Professor Girafales me perdoe, mas ser baixinho também tem suas vantagens. Assim como Messi, Iniesta se aproveita de sua baixa estatura para passar literalmente no “meio” dos zagueiros e, com muita rapidez e equilíbrio, continuar a jogada. É nóis!

E viva a Espanha! E viva o futebol!

Villa e Fábregas, craques da bola

Xavi e Iniesta, motores do meio de campo espanhol

Sneijder, o baixinho craque da Holanda

Lionel Messi, atual melhor do mundo: 1,69 metros

Até que enfim chegou a nossa vez – II

09/07/2010

Em uma ótima conversa com alguns amigos, reapareceu o tema da tardia, porém bem-vinda, aparição dos adolescentes de classe média no cinema brasileiro, assunto já abordado aqui a partir do exemplo de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. O papo enveredou pelas opções e maneiras de tratar questões como o valor da amizade, o tabu da virgindade, a paquera, os segredos, as birras, a rebeldia etc. Nessa toada, entraram na pauta mais dois filmes brasileiros: À Deriva, de Heitor Dhalia, que eu tinha esquecido de citar naquele post e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, que eu apenas mencionei no final do texto.

São dois ótimos modelos de um tratamento muito sensível para esses pontos polêmicos sobre a adolescência. A solução adotada: lirismo, algo não muito comum e difícil de ser aplicado. À Deriva poderia facilmente se passar por um filme europeu, pois tem a pinta de muitos dos ótimos filmes que a França, por exemplo, produz atualmente. Definitivamente, não parece brasileiro. Não há tese social explícita no discurso dos personagens, tiros disparados, cafetões e o principal: não há necessariamente uma cor local. Mesmo a história se passando em um lugar litorâneo e falando de coisas como infidelidade e sexo, Dhalia deixa claro que é um filme de personagens e conflitos universais, onde tudo é mostrado com muita poesia, trabalhando mais com a sugestão e o poder metafórico de lindas imagens do que o escancarar do explícito. O título do filme alude à condição dos personagens e de suas emoções, o que já se coloca na bela primeira cena, em que pai e filha bóiam no mar e olham frontalmente para o sol, bem acima deles. O enredo conta a história de Filipa (Laura Leto, muito bonitinha), uma garota de 14 anos que, além de estar passando por transformações naturais, descobre que seu pai (Vincent Cassel) é infiel e tem um caso com uma estrangeira.

Antes que o Mundo Acabe é tão encantador quanto. Aqui a história é de Daniel, um moleque de 15 anos, que mora em Pedra Grande, uma cidadezinha do Rio Grande do Sul. Não conheceu o pai, que agora resolve aparecer, tem uma “namorada” que não sabe o que quer e seu melhor amigo foi acusado de roubo. A paisagem é mais rural e isso também influencia certas temáticas dentro do filme, mas a graça dele é, de novo, o lirismo.

Assim como As Melhores Coisas e À Deriva, o filme não impregna o roteiro de um texto carregado para retratar a juventude. Prefere o universo das expressões, gestos e cenas com aquela cara de clipe bonitinho. É curioso o quanto coisas aparentemente insignificantes que os adolescentes fazem ficam maiores na tela e nos emocionam. É o grupinho de garotos que andam de bicicleta juntos, a rodinha na hora do intervalo, colocar a cabeça pra fora do ônibus da excursão, o jeito de sentar abraçando os joelhos e muitos outros símbolos que estão presentes nos 3 filmes. Claro que há também certa romantização que faz esses filmes escaparem do mero retrato. Apesar de também ilustrarem os problemas dessa fase da vida, terminam de maneira muito positiva, reforçando um lado doce e mágico de ser adolescente. Nos 3 casos, as personagens femininas são encantadoras, pois – e aí vem uma visão pessoal – fisicamente já evoluíram, mas ainda têm aquele lado “moleca”, com um olhar empolgante, típico de quem tem muita vontade de descobrir milhões de coisas que ainda não sabe. E talvez seja isso uma das coisas mais gostosas dessa fase: querer descobrir o mundo. Não importa se depois serão corrompidos ou verão que a vida não é nada do que pensavam. A curiosidade e a empolgação, a energia, são marcantes e fazem valer à pena. O importante é aproveitar, antes que o mundo acabe.

A conseqüência de ver filmes que se comunicam tão diretamente com o nosso passado é uma inevitável nostalgia e até uma auto-avaliação, do tipo “será que aproveitei, será que fui feliz?”. Uma vez li uma frase atribuída a Oscar Wilde, que se lamentava: “Foi-se a juventude e eu não beijei todas as bocas”. Longe de tal pessimismo, lembro da minha recente adolescência com muito carinho, mas ainda sentindo uma pontinha de inveja: não sei se andei tanto de bicicleta quanto deveria.

Abaixo, os trailers dos dois filmes:

Lágrimas de Sangue

06/07/2010

Certo, os vampiros estão na moda. Não só no cinema, com a saga teen Crepúsculo, mas também na TV, com séries como True Blood e Vampire Diaries. Tais obras, principalmente as duas primeiras, abordam a mitologia dos vampiros humanizando-os e mostrando, antes de tudo, os embaraços de sua condição. Nelas, ser vampiro não é só ter maior força física e caninos afiados; ser vampiro é também obstáculo para a realização de muitos desejos e vontades.

Se isso não é novidade, a tendência do vampiro deprê (como diz uma amiga minha) é forte. Em muitos dos livros e filmes mais antigos, os vampiros, ao contrário da cartilha atual, são criaturas essencialmente aterrorizantes e soberanas na realização de suas aspirações. Mesmo Bram Stoker e Anne Rice, dois escritores que aprofundam mais os personagens com presas, não fogem da tradição de tratar os vampiros como seres fantásticos, monstruosos e temíveis. Claro que se pode perceber no Drácula do Murnau, por exemplo, certa angústia na figura do Conde Orlok, mas o fundamental para a atmosfera expressionista do filme é o medo que Nosferatu causa – ou causou.

Esse tom de invencibilidade parece ter se unido ao poder de sedução e tornado o vampiro, principalmente o vampiro do cinema americano, uma figura venerável, uma verdadeira autoridade. Na década de 80, A Hora do Espanto e alguns filmes do John Carpenter ajudaram a solidificar a figura do vampiro como um ser necessariamente bonito, irresistível, elegante, superior não só fisicamente, mas também intelectualmente, psicologicamente, espiritualmente. O único defeito: ser uma criatura das trevas, pretexto suficiente para que seja eliminado pelo mocinho.

Porém, a nova onda é o vampiro ser o mocinho. Nada de errado, trata-se de uma visão como qualquer outra e que anda bem difundida por aí. Contudo, o caso de Crepúsculo é um exagero. Arrisquei-me a ler o 1º livro da série numa crise ética do tipo “Como vou criticar se não conheço?”. Mas não consegui ler inteiro. Tudo bem Stephenie Meyer não querer que se enfie uma estaca no vampiro pálido, mas ela parece desejar que sintamos pena do cara. E nem isso ela consegue. Ao contrário de Harry Potter, a saga do deprê descorado não é, a meu ver, uma boa obra de literatura juvenil. É mal escrito, mal costurado, os personagens são fracos e mesmo o mote principal do amor impossível – que costuma dar certo – transforma a história numa coisa muito, muito chata. Os filmes não são melhores do que isso. Exaltam um sentimentalismo de forma que vários dos elementos que ajudaram a formar a figura mitológica do vampiro se dissolveram. É pedir para esquecer o Conde Drácula, pois Edward Cullen é vegetariano – não se alimenta de sangue humano – e virgem – vive em conflito numa relação demasiadamente contida com Bella Swam.

Por essas e outras que gosto bastante de True Blood, principalmente por equilibrar bem os elementos ao redor dos vampiros: eles são cheios de problemas e têm seus dramas pessoais muito bem delineados, mas ainda causam medo, seduzem e são sexualmente engenhosos. Abordando a coexistência entre vampiros e humanos, a série da HBO narra o amor inusitado entre o vampiro Bill Compton e a graciosa Sookie Stackhouse, uma telepata – ótima interpretação de Anna Paquin. Há também metamorfos e lobisomens, mas nada é de plástico: esses personagens têm história e suas conexões com a linha principal são coerentes, não são meros tapa buracos. A qualidade das subtramas alivia a carga melodramática em cima do casal principal e faz a série ganhar consistência. Além disso, a série é um grande exemplo de como a ficção e componentes fantásticos podem dizer muito sobre a realidade. Para aqueles que desgostam do universo mágico ou da fantasia de algumas obras por não serem “reais”, o drama da vampira Jessica Hamby é um ótimo exemplo. Ela é uma jovem que foi transformada em vampira, mas não consegue se adaptar à sua nova condição. É uma adolescente cheia de inseguranças e dúvidas sobre o que fazer, como fazer, onde fazer. Há algo mais real que isso?

Com um tema parecido, há um filme recente (2008) que considero uma verdadeira obra-prima do terror: Deixa Ela Entrar, um longa sueco, do diretor Tomas Alfredson, que, de tão bom, não me permite uma análise que sequer se aproxime do que o filme pode oferecer. Só digo que, após filmes de terror, é normal ouvir da boca de quem estava assistindo certos adjetivos comuns ao gênero: horripilante, fantástico, “dá muito medo”. No entanto, o primeiro elogio que me veio à cabeça após assistir o filme foi “lindo”. Sim, alguns dizem ser o filme de terror mais fofo da história. Diria que é de tirar o fôlego.

Nosferatu (1922)

O vampiro Valek, em "Vampiros", de John Carpenter

Tudo bem ser deprê, mas, na boa, o cara é insosso!

Um filme de terror que fala sobre a amizade como poucos


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