Até que enfim chegou a nossa vez

Admito: retratar a adolescência não deve ser tarefa fácil. Pelo menos é a essa conclusão que chego ao pensar nos filmes que estampam os teens na tela. Em Hollywood, o cinema comercial nos passa a mensagem de que só existem dois tipos de adolescentes: os retardados mentais (vide American Pie e outros besteiróis) ou os problemáticos (vide Aos Treze e semelhantes). Em filmes independentes, geralmente é reservado ao adolescente um personagem bem bizarro, como é o caso de Pequena Miss Sunshine, em que o ótimo Paul Dano faz o papel de um jovem “emo” ficcionado por aviação. Tal padrão se verifica com freqüência também nos filmes europeus, ou nos chamados “filmes de arte”.

No Brasil, a coisa é ainda pior, já que a questão envolve classes sociais. Essa minha visão é polêmica, mas já encontrei muita gente que concorda: nossos cineastas, cuja imensa maioria vem de famílias ricas ou de classe média, parecem ter um peso na consciência, uma dívida a ser paga. Isso se reflete na já velha conhecida tendência documental do cinema brasileiro. Muitos realizadores julgam necessário mostrar a realidade dos menos desfavorecidos e acham isso suficiente para terem um bom filme. “Não preciso de uma trama, a unidade dramática já está na própria vida dessa gente”, ouvi de alguém por aí. Não concordo. Ainda bem que nem todos pensam assim e que temos cineastas que conseguem fazer as duas coisas: há a profusão de um discurso social, mas ele é colocado de maneira sutil e sempre apoiado por ótimas histórias e personagens fortes.

Na verdade, o que interessa para este post – perdoem-me pela divagação acima – é que os jovens da periferia, os adolescentes favelados, são, mal ou bem, representados pelo cinema e pela TV. Cidade dos homens, por exemplo, pareceu ter feito isso com qualidade. O que ocorre é que, nesses filmes ou séries de tendência mais naturalista, há uma lacuna, um vazio. Falta, no conjunto geral das obras, a aparição de uma grande camada da sociedade brasileira. Um grupo muito presente na realidade é esquecido, um tipo de gente que é pouco mostrada: os adolescentes de classe média.

Não, isso não é um choro mimado de quem não se sente representado nos filmes nacionais. Não é simplesmente uma questão de “falem um pouco de mim”, já que fui um adolescente de classe média. Só acho que é um assunto riquíssimo para ser tão mal aproveitado.

Pois bem, essa ausência parece ter chegado ao fim. E um dos condutores dessa aparente nova onda é essa delícia de filme que é As Melhores Coisas do Mundo, da Laís Bodanzky. Ela, que já fez Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade, renova a parceria com Luiz Bolognesi, seu marido, que fez um roteiro baseado na série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. No filme, Mano (Francisco Miguez, clone do meu primo) é um garoto de 15 anos que está passando por um processo de amadurecimento. Está aprendendo a tocar violão, gosta da garota mais gostosa do colégio, tem um irmão com problemas sentimentais e ainda tem de lidar com a separação dos pais por um motivo que o constrange. Sua melhor amiga, Carol (Gabriela Rocha), faz o tipo “garota de conteúdo”, só anda com os garotos e nutre uma paixão pelo professor de física, vivido por Caio Blat. Além de Blat, Denise Fraga e Zé Carlos Machado, como os pais de Mano, e Paulo Vilhena, como o professor de violão, completam os famosos do elenco. O resto é composto de atores ainda em início de carreira, como Fiuk, ou de garotos “pescados” pelas oficinas preparatórias, como é o caso do casal principal. Sendo sincero, molecada boa pra caramba!

O casal principal, interpretado por Francisco Miguez e Gabriela Rocha

Um dos títulos alternativos para o longa era Agora é Minha Vez. Muito sugestivo. Foi assim que me senti vendo o filme. Era a minha vez: o filme é sobre mim, sobre a minha geração, sobre meus amigos, sobre nós. Muitas das situações típicas pelas quais todo adolescente passa estão ali, retratadas com sensibilidade e muito cuidado. O jovem não é débil mental e nem ignóbil. Tem problemas, mas não é potencialmente problemático, como os drogados do cinema americano. Os conflitos são aqueles que todo mundo tem: a família, a crise existencial, a aceitação na escola, a perda de virgindade, a paixão não correspondida, o blog pretensiosamente literário (xiii, sem gracinhas hein), o amorzinho pela melhor amiga, as fotos comprometedoras no celular, os bilhetinhos na aula, o jogo da verdade etc.

Mas esqueça a artificialidade e o jogo sujo de estereótipos que ocorre em Malhação. Aqui tudo parece verdadeiro. Não há o padrão Globo de beleza e dicção perfeita. Apesar de ser fictício e com boas doses de lirismo, o filme quer mostrar “como é”. Assim, a identificação de quem tem a mesma idade que eu com o filme é quase inevitável. No meu caso, até a música foi a mesma. Em cada momento do filme, algum personagem me parecia muito representativo. O roteiro, muito bem costurado, vai apresentando as situações características aos poucos, de forma natural, originando ótimas cenas. Uma delas é o momento em que o pai de Mano conversa com os filhos sobre a separação, quando surge aquele discurso hipócrita: “Eu amei muito a sua mãe, os momentos que vivemos juntos foram ótimos”. “Amou o caralho”, diz a narração em off, que é muito bem dosada: aparece circunstancialmente, quando a consciência do personagem não agüenta mais, precisa gritar. Não é aquele chatíssimo guia didático comum nos filmes do Jorge Furtado.

Aliás, de dosagem a Laís entende. Nada é exagerado. O filme tem momentos tristes e felizes, depressão e humor, assim como a vida de qualquer adolescente. Vem daí, talvez, o sucesso do filme, tanto de crítica quanto de público. O público mais jovem se enxerga na tela e a crítica reconhece os méritos artísticos da produção, saudados com os prêmios principais no Festival de Pernambuco. Acompanhando a “moda”, mais dois filmes recentes tratam desse assunto espinhoso: Os Famosos e os Duendes da Morte, de Emir Filho, e Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiz Azevedo. Já tava na hora né!

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5 Comentários em “Até que enfim chegou a nossa vez”

  1. Mari Says:

    Você tocou Something para alguém e para mim não?


  2. […] bem-vinda, aparição dos adolescentes de classe média no cinema brasileiro, assunto já abordado aqui a partir do exemplo de As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. O papo enveredou pelas […]

  3. Clau Says:

    Ivan, confesse os seus segredos! Por que essa poderosa identidade com esse filme no máximo bom?

  4. Carol Says:

    Ivan, sei que você vai achar isso perigoso e deprê, mas esse filme me deu uma vontade de voltar no tempo só alguns aninhos. Que merda! A Laís deveria se juntar com a Ana Azevedo e fazer um “Antes que as melhores coisas do mundo acabem!”


  5. Bela defesa, Ivan. E o fato dos véios da crítica estarem gostando bastante parece endossar o que você está falando. Significa que eu terei que ver o filme em algum momento. Oh my god.


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