Arquivo para março 2010

City of Blinding Lights

21/03/2010

Tokyo

Há alguns posts atrás, manifestei aqui meu apreço pela chuva em seus diversos formatos, sendo que gosto de ouvi-la, senti-la, tocá-la etc. Outra paixão minha é pelas “blinding lights”, as luzes da cidade, os pontos luminosos que, à noite, vem de várias alturas e em várias cores, ajudando a formar paisagens como a da figura acima.

Creio que se tivesse a livre oportunidade de escolher um lugar para morar, os únicos pré-requisitos seriam: cidade bem urbanizada, prédios altos, muita gente, vida cultural ativa e luzes, muitas luzes, noites iluminadas. Oh, sim, sou um cosmopolita confesso, urbano até dizer chega. Para mim, praias, campos e cachoeiras devem ficar limitados a momentos de lazer findáveis, escapes fundamentais da rotina, mas de efeito passageiro. Não trocaria uma cidade bem iluminada por um recinto paradisíaco.

E essa visão até que é bem comum. Há odes à paisagem noturna urbana aos montes. Para ficar em exemplos atuais, John Mayer canta exatamente isso em Neon, cuja letra guarda várias semelhanças com a música do U2 que dá nome a este post. O diretor francês Christophe Honoré é outro, que, em seus filmes, insiste em mostrar Paris e suas luzes à noite.

Brisbane

Vou um pouco adiante. Um momento especial para mim é aquele típico fim de noite de sábado, também conhecido como a volta da balada ou o retorno do barzinho – no meu caso, seria esta última. Nos bancos do carro, domina o silêncio, já que todas as energias foram gastas: o pessoal dançou, cantou, conversou bastante e provavelmente bebeu muito. Levemente embriagados, alguns dormem e outros, como eu, encostam a cabeça no vidro do carro para acompanhar o êxtase das luzes. Na madrugada, com as avenidas mais livres e o carro em maior velocidade, os skylines,os flashes, as luzes neon e tudo mais que é fluorescente ajudam a ofuscar nossa visão, compondo aquela imagem embaçada, cheia de “vagalumes”. Claro que essa viagem seria mais bem aproveitada se eu morasse em Tóquio ou se o Kassab não tivesse acabado com os outdoors luminosos. Mas, ainda assim, São Paulo possui as “blinding lights” e nelas eu vejo beleza, parte de um último suspiro antes de chegar em casa e acordar, no dia seguinte, voltando à vida real.

Para a minha alegria, a Sofia Coppola soube captar esse tipo de situação com extrema sensibilidade em Lost in Translation (Encontros e Desencontros). Você pode ver aqui, em um vídeo de qualidade não tão boa, o momento em que Scarlet Johansson e Bill Murray voltam da balada em Tóquio. Aliás, poucos filmes homenagearam tanto uma cidade quanto esse. O melhor de Tóquio, enquanto megalópole, está lá: desde a tradição dos karaokês e tudo quanto é artefato eletrônico até a altura dos edifícios, as luzes e a multidão de pessoas. E Sofia tem um olho especial, responsável por belíssimas imagens. Coisas como a cena em que Scarlet está sentada à beira de uma enorme janela de vidro, abraçando os joelhos e olhando a cidade do alto do apartamento. É um filme muito gostoso de ver e nos traz as luzes de Tóquio. Lindo!



Menos inspirada artisticamente, mas com espírito parecido, é essa cena, abaixo, de O Diabo Veste Prada:

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O último a sair do breu acende a luz

13/03/2010

imagem de Deviantart.com

Estava esperando o ônibus. O ponto fica em frente a um bar que permanece aberto até altas horas. Gosto de ficar um pouco distante e não junto com o aglomerado de pessoas. Assim, coloco os fones de ouvido e me distancio, posicionando-me perto de outros estabelecimentos que já fecharam e agora suas calçadas dão lugar aos mendigos, que ali dormem.

Um dos rosto sob os cobertores era o de uma menina; negra, devia ter 14 ou 15 anos. Quando percebeu que eu me aproximava, afastou o cobertor e ergueu a cabeça. Passou a me encarar. Era muito bonita, mas seu olhar me incomodava: era penetrante e muito triste.

– Você vai comprar alguma coisa pra eu comer?

(não respondi)

– Então o quê que você tá olhando?

(constrangido, fui embora)

É o tipo de situação que adquire um estranho valor temporal, fazendo com que eu esquecesse de muita coisa que poderia ocupar a minha cabeça na volta pra casa. A roupa suja, o cobertor, a hostilidade da calçada, o cheiro, tudo é muito forte. Mas mais signficativo ainda é o olhar. Nele, pouco se esconde. A miséria está ali, muito mais no olhar do que na “estética da pobreza”. São os olhos que me entristeceram e que revelaram, mais uma vez, a angústia do mundo sub-humano. Não só os meus problemas se tornaram mesquinhos naquele momento, como também lembrei que o sofrimento dela e de outros na mesma situação representa uma dívida. A humanidade, nós, temos dívidas, contas gigantescas a pagar. Nossas necessidades consumistas, um real egoísmo e a alienação fazem com que tenhamos momentos alegres e continuemos andando, passeando no nosso mundo humano. Isso até nos depararmos com um olhar como o dessa menina e percebermos que o mundo sub-humano coexiste junto com o nosso. Fazemos parte dele, mas não pagamos a conta. Amanhã, voltaremos ilusoriamente ao mundo humano, achando que tudo está bem, mas provavelmente um outro olhar em alguma esquina vai nos lembrar que estávamos sonhando. É um ciclo: a todo momento, entramos e saímos do breu.

Lenine canta, em Quadro-Negro: “Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz? O último a sair do breu acende a luz”

 

Imagens de Deviantart.com

O desafio é não cair

03/03/2010

Viver na base do risco, aventurar-se, estar sempre, conscientemente, na corda bamba. O que fazer ou o que pensar quando a realização de um sonho envolve um perigo eminente? Quando a prática da atividade que lhe dá prazer exige riscos de vida? Desde esportes radicais até diversas modalidades de estilos de vida, é sempre delicado conviver com a necessidade de ter equilíbrio – e aí estou, sim, usando o termo em todos os sentidos metafóricos possíveis.

É nessa perspectiva que viveu Philippe Petit, um francês doido que teve como maior feito montar, clandestinamente, uma corda de aço entre as duas torres gêmeas  (antes do atentado, claro) e se equilibrar nela, ficando “lá em cima” durante, aproximadamente, 30 minutos.

Petit, concentração e uma inexplicável paixão pelo perigo.

A aventura e todos os seus preparativos são mostrados com competência e criatividade no documentário “O Equilibrista”, de James Marsh, que, aproveito a oportunidade, indico com entusiasmo para vocês, especialmente para o meu amigo Gabriel Pipolo.

Abaixo o trailer, seguido de um poema que considero muito especial do Francisco Bandeira de Mello.

O equilibrista

Francisco Bandeira de Mello

Tocávamos clarinete na corda bamba
subíamos às altas torres do Egito
passeávamos de pára-quedas
no sol sem fim dos dias de fogo
subíamos à capota do avião
por cima das nuvens
recitávamos poemas à lua
tocando nela.

Andávamos nos parapeitos dos edifícios
de um pé só na balaustrada dos abismos
não caíamos dos fios metálicos do circo
andando de cabeça para baixo
nem do alto da torre Eiffel correndo sonâmbulo.

Só na vida é que não nos equilibrávamos.


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