Arquivo para fevereiro 2010

A sujeira de Kassab

21/02/2010

Podridão e incompetência

Kassab foi eleito prefeito de São Paulo a meu contragosto. Seus eleitores, em imensa maioria, votaram em sua figura, em sua pessoa e contra Marta Suplicy. Votaram no “bom moço” Kassab e não no que seu planejamento governamental ou ideologia partidária representavam. Essa mentalidade – votar na figura pessoal, sem ponderar sobre as diretrizes, feitos e caminhos futuros de seu governo – é típica do populismo e representa um atraso colossal se pensarmos em capacidade analítica, oferecida pela democracia, do eleitorado. O ódio de boa parte dos eleitores para com a candidata petista era justificável, mas virou atitude paquidérmica quando se reverteu em apoio ao candidato dos Democratas (partido que já se chamou Arena, partido do Arruda, partido do Mensalão no Distrito Federal, partido da sujeira).  Fora a ojeriza à petista, outra motivação dos votantes foi a “coragem” de Gilberto ao colocar em voga leis proibitivas, lembrando os velhos tempos da Atenas pré-democracia, onde os legisladores ganhavam moral na medida em que iam proibindo, fazendo leis, quanto mais melhor.

Não votei e não voto em Gilberto porque não compactuo com a postura política do DEM, julgo vazia a capacidade programática do governo e acho a ausência de projetos sociais da prefeitura um completo absurdo. Nem a “fama” de bom gestor público – usada incansavelmente como argumento para compensar a falta de ideias de resolução para os inúmeros problemas de São Paulo – restou ao prefeito. Grande porcaria manter a prefeitura sempre com dinheiro em caixa, sem dívidas, enquanto as pessoas se afogam nos seus próprios quintais. Li com desgosto uma manchete do Estadão, de algumas semanas atrás, revelando que metade da verba para pavimentação não foi usada, e sim guardada para o caso de alguma outra necessidade. Perfeito, não? E ainda temos que ver o prefeito dar declarações com cara de inocente, do tipo “nossa, choveu muito hein!”.

Dias depois veio outra: “Prefeitura fecha mais de 700 leitos destinados a mendigos e miseráveis”. Sim, difícil de acreditar, mas o senhor Gilberto tira, sem justificativa aceitável, o direito dos indigentes de dormirem decentemente. Que durmam nas ruas, é claro.

Agora recebo a notícia de que 1/3 dos recursos arrecadados na última campanha são de origem ilegal. Era a única faceta nojenta que ainda faltava ao nosso prefeito: péssimo gestor, omisso na hora da onça beber água, membro de uma quadrilha chamada DEM e, na sua mais nova característica, alvo de processos judiciais.

A quem votou em Kassab, meus cínicos parabéns!

Anúncios

GLEE

13/02/2010

Glee,Glee e mais Glee. É um dos meus vícios atuais entre as séries americanas. Resisti muito, ignorei indicações de amigos e os paparicos da crítica, pois julgava (com aquele típico preconceito odioso) algo que daria enjôo de tão caricaturizado que devia ser, além de condenar o que eu achava um estelionato televisivo, um plano podre de embarcar no sucesso de High School Musical.

Mas, se foi na onda do musical da Disney ou não, Glee é muito diferente – e muito melhor. As temáticas são comuns: a escola americana, o bullying, o casalzinho popular, o professor mau, o atleta pop que está dividido entre ser quem ele quer ou quem os outros querem, as minorias estão ali representadas etc. No entanto, a maneira de tratar os estereótipos é o que faz de Glee uma série criativa e muito divertida.

Para ficar com um exemplo: em High School Musical, Troy Bolton (o jogador de basquete pop) é líder do time da escola, que ganha tudo e é treinado pelo pai de Troy, um típico paizão americano que tem orgulho do filho se dar bem nos esportes. Em Glee, o time de futebol americano, liderado por Finn (o quarterback), é um verdadeiro fracasso e seu treinador usa um short ridículo de tão curto.

O professor/coordenador do Glee Will Schuester

Sim, os clichês estão lá, mas é como se imperasse um ímpeto muito mais satírico na maneira de usá-los. High School Musical leva os estereótipos a sério e com eles faz um conto de fadas enjoado, batido e americanófilo. Glee não, Glee estraçalha os estereótipos. Até faz o conto de fadas, mas é um conto de fadas farsesco, cheio de sarro, assumidamente exagerado e com caricaturas que nos divertem.

Fora isso, não me lembro de uma série americana em forma de musical antes. Mesmo com a força da Broadway e a tradição artística do teatro americano – “ator bom tem que ser completo: atuar, cantar e dançar” – não se tem visto musicais em meio às séries e seriados estadunidenses.

Glee traz, então, esse formato, com vários números musicais por episódio. Para tal, aproveita-se de ótimos atores/cantores. Destaco a atriz Lea Michele, que veio da Broadway para fazer a personagem principal Rachel, e a ótima Jane Lynch, que incorpora a vilã Sue Silvester.

As músicas, em sua maioria sucessos de artistas consagrados, se apresentam em novas versões. Os arranjos para várias vozes compõem a cara de Glee.

Rachel

Diversão. Diversão pura. Entretenimento do melhor!

Seal, o demolidor

05/02/2010

Seal, mais um grande cantor do que qualquer outra coisa

Se tivesse que me classificar como um tipo de ouvinte, seria daqueles que implicam com um disco e demoram meses para largá-lo. E o álbum da vez no meu player é Soul, lançado em 2008 pelo cantor londrino Seal. Já o admirava devido a sucessos antigos como Crazy, Violet, Killer e a balada Kiss From a Rose: boas canções, expoentes de playlists versáteis que trouxeram ao britânico grande reconhecimento de público e crítica.

Soul é o último trabalho de Seal e traz como novidade o fato de todas as canções serem regravações, não há nenhuma inédita ou de sua autoria. A proposta do disco é pegar alguns clássicos do Soul e dar-lhes uma poderosa interpretação, sem alterar muito a roupagem; percebe-se que até os arranjos ainda estão muito parecidos com os originais. A diferença mesmo é o cantor. Barítono, lindo timbre, uma leve rouquidão característica e o completo domínio da técnica vocal fazem o potencial de Seal. Mas tudo isso seria insuficiente, não fosse a inteligência da interpretação – leves mudanças nas linhas vocais, muito respeito à gravação original e, ainda assim, um carimbo estilístico próprio do cantor está ali inserido.

Mais que tudo, a escolha das músicas foi corajosa por selecionar canções já consagradas por vozes como a de James Brown, John Lennon, Al Green e muitos outros. O titio Ronnie Von disse achar a interpretação de Seal para Stand by me (penúltima faixa) superior às versões de Lennon e de Ben E. King. Não só digo o mesmo, como estendo essa visão para as outras canções. Além disso, um amigo meu costuma dizer, com certa razão, que cantar soul em 6 por 8* é coisa pra quem sabe.

Essas reflexões me levam ao conceito de intérprete demolidor: aquele cantor que acaba com todas as outras interpretações já feitas para a música. Claro que, nesse caso, isso ainda seria um exagero, tendo em vista o nível dos intérpretes homenageados por Seal nesse disco. Mas os demolidores existem. Elis Regina e Milton Nascimento, por exemplo, costumam dar interpretações que, se não podem ser definitivas, são extremamente difíceis de serem superadas – ignorando, claro, o alto grau de subjetividade desse tipo de julgamento. Não sei se Seal chegará a esse patamar com tanta autoridade, mas, sem dúvidas, é um dos grandes intérpretes da atualidade e Soul é uma delícia de se ouvir.

Abaixo, posto um vídeo de uma apresentação em que o britânico canta It’s a man’s world, quase imortalizada na voz de James Brown:

* 6 por 8 é uma fórmula de compasso musical. No soul, é empregada, geralmente, em canções que tem por característica um andamento mais lento e arrastado. A música do vídeo acima é um exemplo.


%d blogueiros gostam disto: