Chuvas inspiradoras

Tem chovido bastante nos últimos dias. Gosto de chuva. Gosto de ver a chuva, de ouvir a chuva, de cheirar a chuva e, de vez em quando, de sentir a chuva. Ela também me inspira bastante, é como se fosse um momento de parar tudo e pensar, enquanto as gotas caem. Para tanto, qualquer tipo de chuva já é o suficiente para mim. Gosto de ficar escutando uma chove forte e constante antes de dormir, mas também curto a inconstância; quando ela fica oscilando, numa indecisão entre arrebentar tudo e  manerar. Ainda aprecio a chuva fraca, daquelas finas que não molham tanto, mas bastam para fazer um barulinho bom. Assim como a garoa ou a chuva em seu fim, com um espaço de tempo maior entre uma gota e outra. Chuva é um fenômeno lindo.

Acontece que, num país como o Brasil, a chuva é motivo de preocupação, já que geralmente significa que o noticiário do dia seguinte estará repleto de notícias tristes. Mas a culpa não é da chuva, que é linda, gostosa, arrasadora no melhor sentido. Nos comentários sobre as catástrofes recentes, tenho odiado escutar frases como “É, a chuva não ajudou”, “Que pena que choveu”, “Uma fatalidade da natureza”. Pobre chuva! Os homens, que constroem pousadas em áreas com licitação ilegal, aparecem no jornal televisivo falando mal dela, acusando-a de ter causado prejuízo, de ter matado pessoas queridas. A chuva, o sol, o mar, a neve, os rios e os ventos não matam ninguém. São maravilhas sem as quais não teríamos a acepção do conceito de beleza que temos hoje. Poderia, ainda, ficar aqui falando da importância da chuva para a natureza, o ciclo da água etc. Mas pra isso já temos o Guilherme Arantes. Só quero enfatizar que o que mata é o descuido, a ganância, a sujeira. Aliás, ouvi alguém por aí dizer que as chuvas vêm quando algo precisa ser lavado – explica por que chove tanto por aqui.

Mas, esquecendo esse regurgito político, volto a dizer que amo a chuva. E, muitas vezes, quero que chova. No cinema, tenho quedas por cenas com chuva. E ela se tornou um recurso até covarde se a intenção é emocionar. Sob chuva, aconteceram despedidas, perseguições, danças, fugas, abraços, lutas e, claro, beijos. Há cenas que são marcantes muito em função da gloriosa chuva. Estava aqui pensando em algumas e rapidamente cheguei em uma muito especial para mim. Sem esquecer do Gene Kelly e de várias cenas de amor sob os encharcos de São Pedro, a que mais mexe comigo, principalmente por causa de sua beleza estética, é uma cena de Rapsódia em Agosto, direção de Akira Kurosawa.

O filme é sobre quatro jovens que vão passar uns dias no Japão, na casa da avó, que sobreviveu ao ataque nuclear em Hiroshima e Nagasaki. Tudo é quase intimista, muito sutil e essa maravilhosa cena começa aos 2:10 do vídeo que coloco aqui. Infelizmente, só tem o começo dela. O “clímax” da cena, entretanto, estampa o cartaz do filme(acima). Algo raro, de uma singeleza irresistível, da qual só Kurosawa parece ser capaz.

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5 Comentários em “Chuvas inspiradoras”

  1. Edu Says:

    Ai, tá bom… mas minha mente oportunista só consegue gostar de chuva quando estou em casa, antes de dormir.

  2. Carol Says:

    Kurosawa é o rei do enquadramento neh, haja sensibilidade!

  3. Clau Says:

    Chuva boa!
    Bucando Kurosawa, acabei aqui. Adorei os textos.
    Curioso, meu blog chama-se pitadascotidianas, também já escrevi alguma vezes sobre a chuva, não tão bonito quanto você, mas ela me encoraja, rs.Se quiser:http://pitadascotidianas.blogspot.com/2009/09/quem-sabe-um-post.html
    Parabéns!

  4. Gabriel R.M. Says:

    É. A maneira de ver as coisas muda muito. Infelizmente culpamos a chuva e não a ilegalidade de muitas coisas construídas onde não deveriam o ser. Acontece…
    Sobre o filme, não o vi. Mas, de fato, a chuva incrivelmente dá um bônus para o que for emotivo.
    Bão também!


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