Arquivo para janeiro 2010

Entendi, Borges, entendi!

26/01/2010

Esquecimento
Jorge Luis Borges

“Já somos o esquecimento que seremos, a poeira elementar que nos ignora, que não foi Adão e que é agora todos os homens. Somos apenas duas datas: a do princípio e a do término. Não sou o insensato que se aferra ao mágico som de seu próprio nome. Penso com esperança naquele homem que não saberá o que fui sobre a terra. Abaixo do indiferente azul do céu, esta meditação é um consolo.”

Nada inspirados

23/01/2010

Marginal Tietê na altura da ponte das Bandeiras: água pra todo lado. Rivaldo Gomes/ Folha Imagem

Falar da chuva quase descambou para um desabafo político no post anterior. A salvação, talvez, veio com o lirismo de Kurosawa. Mas hoje, ao ler a Folha, encontro um artigo de Fernando de Barros e Silva que expressa muito do que penso sobre os desastrosos alagamentos que vem ocorrendo em São Paulo.

Infringindo a lei do copyright, exponho aqui, na íntegra, o texto-manifesto do colunista:

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Ensaio sobre o aguaceiro

SÃO PAULO – Aguaceiro, diz o Houaiss, é uma “chuva forte, súbita e passageira”; mas também pode ser, em sentido figurado, “contrariedade, infelicidade inesperada, infortúnio”. Os paulistanos conhecem de perto os dois significados: a chuva forte vem e passa; o infortúnio fica. E nem se pode dizer que seja uma “infelicidade inesperada”.
É certo que chove um bocado neste janeiro. Mas também é imoral buscar nos humores da natureza as razões de um colapso que se explica muito melhor pelo descaso histórico com o planejamento da cidade, associado à incompetência e incapacidade da administração demo-tucana para ao menos notar a extensão e gravidade do problema.
A chuva voltou a fazer estragos em todas as regiões da capital e provocou alagamentos em 112 pontos na madrugada de quinta. Tomando-se a Grande São Paulo, dez pessoas morreram. O Tietê -o rio infecto que, segundo os tucanos, não alagaria mais- transbordou pela terceira vez desde que sua calha foi rebaixada, em 2006. Os congestionamentos ontem batiam na casa dos 140 km -isso em janeiro, quando estima-se que de 20% a 30% da frota esteja fora de circulação.
Obras de drenagem contra enchentes insuficientes, piscinões saturados, bueiros entupidos, solo cada vez menos permeável. O mar de laje da zona leste é uma das imagens mais tristes da tragédia paulistana. É evidente que essa é uma batalha que vem sendo perdida pela cidade, com transtornos para todos e danos intoleráveis para os pobres.
Havia cobras, ratos e vidas estragadas aos montes sob a água suja quando, depois de dias, Gilberto Kassab deu o ar da graça no Jardim Pantanal. O prefeito agora, mesmo vaiado, pede que a população “fique tranquila”, o que parece menos uma demonstração de serenidade do que de desconexão com a realidade. Enquanto isso, Serra avisa a rapaziada pelo twitter que este é um “ano anômalo”. De fato, um ano surreal. Já encontramos até peixe morto em túnel alagado. Quem sabe ainda vão achar tucano afogado.

Chuvas inspiradoras

21/01/2010

Tem chovido bastante nos últimos dias. Gosto de chuva. Gosto de ver a chuva, de ouvir a chuva, de cheirar a chuva e, de vez em quando, de sentir a chuva. Ela também me inspira bastante, é como se fosse um momento de parar tudo e pensar, enquanto as gotas caem. Para tanto, qualquer tipo de chuva já é o suficiente para mim. Gosto de ficar escutando uma chove forte e constante antes de dormir, mas também curto a inconstância; quando ela fica oscilando, numa indecisão entre arrebentar tudo e  manerar. Ainda aprecio a chuva fraca, daquelas finas que não molham tanto, mas bastam para fazer um barulinho bom. Assim como a garoa ou a chuva em seu fim, com um espaço de tempo maior entre uma gota e outra. Chuva é um fenômeno lindo.

Acontece que, num país como o Brasil, a chuva é motivo de preocupação, já que geralmente significa que o noticiário do dia seguinte estará repleto de notícias tristes. Mas a culpa não é da chuva, que é linda, gostosa, arrasadora no melhor sentido. Nos comentários sobre as catástrofes recentes, tenho odiado escutar frases como “É, a chuva não ajudou”, “Que pena que choveu”, “Uma fatalidade da natureza”. Pobre chuva! Os homens, que constroem pousadas em áreas com licitação ilegal, aparecem no jornal televisivo falando mal dela, acusando-a de ter causado prejuízo, de ter matado pessoas queridas. A chuva, o sol, o mar, a neve, os rios e os ventos não matam ninguém. São maravilhas sem as quais não teríamos a acepção do conceito de beleza que temos hoje. Poderia, ainda, ficar aqui falando da importância da chuva para a natureza, o ciclo da água etc. Mas pra isso já temos o Guilherme Arantes. Só quero enfatizar que o que mata é o descuido, a ganância, a sujeira. Aliás, ouvi alguém por aí dizer que as chuvas vêm quando algo precisa ser lavado – explica por que chove tanto por aqui.

Mas, esquecendo esse regurgito político, volto a dizer que amo a chuva. E, muitas vezes, quero que chova. No cinema, tenho quedas por cenas com chuva. E ela se tornou um recurso até covarde se a intenção é emocionar. Sob chuva, aconteceram despedidas, perseguições, danças, fugas, abraços, lutas e, claro, beijos. Há cenas que são marcantes muito em função da gloriosa chuva. Estava aqui pensando em algumas e rapidamente cheguei em uma muito especial para mim. Sem esquecer do Gene Kelly e de várias cenas de amor sob os encharcos de São Pedro, a que mais mexe comigo, principalmente por causa de sua beleza estética, é uma cena de Rapsódia em Agosto, direção de Akira Kurosawa.

O filme é sobre quatro jovens que vão passar uns dias no Japão, na casa da avó, que sobreviveu ao ataque nuclear em Hiroshima e Nagasaki. Tudo é quase intimista, muito sutil e essa maravilhosa cena começa aos 2:10 do vídeo que coloco aqui. Infelizmente, só tem o começo dela. O “clímax” da cena, entretanto, estampa o cartaz do filme(acima). Algo raro, de uma singeleza irresistível, da qual só Kurosawa parece ser capaz.

Guerra ao Terror é uma porrada, um dos melhores filmes de 2009

17/01/2010

Sobre a Guerra do Iraque, muito já se disse e já se mostrou no cinema.  Mas nada que eu tenha visto foi tão visceral e contundente quanto este. Guerra ao Terror, da diretora Kathryn Bigelow, metralha o espectador ao acompanhar o trabalho de soldados cuja missão é desarmar bombas. Se a missão já era complicada, a coisa só piora com a chegada do Sargento James, um homem que parece necessitar de muita adrenalina e, assim, realiza os serviços com imprudência e irresponsabilidade, colocando em risco sua vida e as de seus subordinados.

O caos ao redor, o pavor dos soldados e o iminente risco de morrer a qualquer momento são retratados com habilidade rara por Bigelow. A câmera na mão, tremida, nos coloca lá, junto com os combatentes, numa aula de como criar tensão – minha mãe, que dissera estar com sono, não piscou os olhos durante o filme. Vi tamanha agitação de câmera pela última vez em Procurando Elly, suspense iraniano, dirigido por Asghar Farhadi. Da mesma maneira, em Guerra ao Terror, a ausência de artifícios distanciadores, como digressões ou modulações temporais, ajuda na sensação de veracidade. Também não há romantização – a trilha sonora, por exemplo, praticamente inexiste -, sendo tudo muito cru, uma forte aposta no retrato realista da situação.

Para completar, há um elenco afiadíssimo, com destaque para Jeremy Renner (Sargento James), que, por ser o ator principal, deveria ter seu nome com mais destaque no cartaz. A velha mentalidade publicitária das distribuidoras insiste em incoerências como essa – o cartaz traz, destacados, os nomes de David Morse, Guy Pearce e Ralph Fiennes, que fazem mínimas pontas. Esquecem, então,de Renner, brilhante, e Anthony Mackie, um dos subordinados, também ótimo.

Mas o importante é que, sem cair na armadilha de fazer politicagem ou soar superficial e americanófilo, Guerra ao Terror provoca reflexões inevitáveis a respeito da ocupação americana, de sua real necessidade e, claro, dos perigos aos quais estão expostos os soldados enviados. Penso, inclusive, que a retirada das tropas americanas, seja ela gradual ou não, acabaria sendo inevitável. Mais do que o direcionamento político de Obama, não sei quanto um governo, da visão que fosse, aguentaria a pressão de ver milhares de sacos pretos descendo dos aviões da Força Aérea todos os dias. Pois essa é a principal imagem consequente de qualquer guerra ou intervenção arbitrária: a família recebendo a volta do filho, ou aleijado, ou morto.

Outra coisa que lembramos ao ver esse filme é a terrível angústia de ter que permanecer na missão até o seu fim. Legendas anunciando os dias restantes para o  término da operação aparecem constantemente na tela. Afinal, quase ninguém é como o Sargento James; destemido para alguns, suicida para outros. Ao contrário, todos morrem de medo, todos querem voltar pra casa logo.

O Sargento James, vivido por Jeremy Renner

Abaixo, o trailer, apesar de achar que não representa bem o filme:

Procurando Norah Jones…

16/01/2010

Capa de The Fall, novo disco de Norah Jones

Quando Norah Jones surgiu para o mundo, em 2002, com Come away with me, seu primeiro disco, uma carreira sólida e de grande sucesso se anunciou. O álbum trazia lindas canções, poucos e bem feitos covers, tudo numa roupagem jazzística, mesmo que com altas pitadas pop. Apesar de haver controvérsias sobre a definição do estilo, é o álbum de jazz mais vendido da história, assim como foi o cd mais vendido de 2002.

O convite

Ao pé do ouvido, pertinho, gostosinho... foi bom enquanto durou

Porém, se, para os apreciadores da beleza e talento de Norah, era aquele o som certo, o melhor que ela podia dar, o som que ela deveria continuar fazendo, para ela tudo parecia insuficiente. Nem a enxurrada de Grammys e o recorde de vendagem impediram que ela mudasse a sonoridade no álbum seguinte, Feels like home, que flerta fortemente com o country, ainda que mantenha em poucas músicas a doçura que lhe era característica no jazz intimista do 1º disco. Vendeu bem – não tanto quanto Come away – e a turnê trouxe uma Norah que, não se sabe se por vontade própria ou por orientação, já não permanecia o tempo todo ao piano, levantando para cantar e exibindo mini-passos não coreografados, enquanto que algumas das músicas antigas recebia novo arranjo – a arrasa-quarteirões Don’t know why, por exemplo, ficou sem piano, com a linda introdução feita, agora, no violão. Foi essa turnê que veio ao Brasil, em apresentação memorável no Via Funchal, na qual pude comparecer.

O guitarrista Adam Levy

Not too late, o 3º disco, de 2007, esqueceu de vez o jazz, continuou uma pegada country e trouxe como novo elemento a busca pelo rock e algumas experimentações. O piano foi praticamente esquecido; Norah toca guitarra, órgão, fender rodhes e o velho companheiro piano elétrico wurlitzer, que foi consagrado por Rick Davies, do Supertramp. O disco, que já trazia Norah compondo com mais frequência, é, para mim, o mais fraco, com a compreensível justificativa de, talvez, ser um disco de transição. Nada, entretanto, que afastasse Norah dos fãs e das vendagens significativas. Para os outros, ela é sempre ótima, o problema é sua auto-crítica, forte o suficiente para se tornar perceptível, nas entrevistas de fim de turnê, a insatisfação com a obra.

E então veio The Fall, o mais recente. Dessa vez a mudança foi radical: Norah dispensou a competente banda que a acompanhava desde o começo e lançou um disco difícil.  Fui ouvir o material na esperança de encontrar um retorno às origens, algo que revivesse, pelo menos em parte, a pureza que tinha o 1º álbum, que julgo o melhor. Não achei nada disso. Na 1ª audição, The Fall me pareceu mais um erro de Norah, mais uma tentativa de se encontrar, de se achar. Era o retrato de uma artista que, surpreendentemente, ainda não se descobriu, com o curioso detalhe de que nós já a descobrimos e a aprovamos em mais de uma de suas facetas.

Mas a paciência mais uma vez foi a chave. Pautado pelo respeito e admiração que tenho por Norah, voltei a ouvir “A Queda”; resolvi colocá-lo no mp4 e as 13 faixas têm me acompanhado por onde vou. Posso dizer que cada vez que ouço gosto mais. O piano foi mesmo embora, a guitarra está mais distorcida, não há jazz, não há country, há baladas, há rock, as letras são tristes. É, como já disse, um disco difícil, com uma instrumentação incomum – se compararmos com os trabalhos anteriores – e os novos arranjos estão mais pesados, menos intimistas, soando diferente da Norah que conhecemos.

No entanto, não consigo esconder minha admiração pela atitude. Já ouvi dizerem que artista de verdade é isso mesmo; está sempre em busca de si, mudando, procurando sem medo de não achar, arrependendo-se, tentando evoluir. Norah podia ter feito 30 Come away with me, colocado várias canções no topo da Billboard, entre outras façanhas. Tinha a fórmula e a competência pra isso. Acertou de primeira, era só manter. Mas não, ela preferiu dar luz a uma das mais nobres virtudes que um artista pode ter para com seu público e sua própria obra, algo que está presente em todos os seus discos e que é cada vez mais raro hoje em dia: honestidade.

Norah, fazendo o que quer


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